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Asma profissional: uma doença profissional muitas vezes disfarçada

A asma profissional é, no essencial, uma obstrução reversível do fluxo de ar nas vias respiratórias e/ou uma hiperreactividade brônquica causada por factores de risco de natureza profissional. Desde a última metade do século passado veio adquirindo um grande “protagonismo” entre as doenças profissionais “destronando” o anterior protagonismo das doenças respiratórias provocadas por poeiras, que os franceses designaram por pneumoconioses e cujo exemplo paradigmático será a silicose. No último quartel desse mesmo século o seu protagonismo nas doenças profissionais foi por sua vez ocupado pelas várias doenças (ou lesões) músculoesqueléticas ligadas (ou relacionadas) com o trabalho que hoje totalizam, com as doenças provocadas por outros agentes físicos, cerca de três quartos de todas as doenças profissionais reconhecidas pela entidade disso encarregue.

 Estima-se que 5 a 10% de todas as asmas dos adultos possam ter origem profissional e, em certas atividades profissionais, essa proporção pode ainda ser maior como é o caso da indústria da panificação. Independentemente de ser mais ou menos conhecida a sua frequência, a asma profissional é, por certo, insuficientemente conhecida, uma vez que o estabelecimento da sua relação com o trabalho nem sempre é suficientemente valorizado.

São conhecidos muitos factores de risco de asma profissional. A indústria da madeira, a indústria alimentar, a soldadura, a indústria têxtil, a indústria química e farmacêutica, a agricultura e a pecuária e a indústria dos plásticos e detergentes são, entre muitos outros, sectores económicos muito associados a um elevado número de casos de asma. Nos hospitais e outras unidades de saúde, diversas substâncias químicas como os desinfectantes, o látex ou os acrilatos podem causar asma brônquica (e outras patologias do aparelho respiratório) nos profissionais de saúde. Ainda no setor económico dos serviços, a asma das cabeleireiras é outra realidade conhecida.

 A presença de um quadro clínico de asma num indivíduo adulto deverá sempre chamar a atenção para a hipótese da sua causa ser profissional, principalmente se associado, por exemplo, a rinite ou conjuntivite que, muitas vezes, a precedem ou podem aparecer simultaneamente. A história clínica deverá incluir a história profissional pormenorizada, a identificação de um período de latência entre a exposição e o aparecimento dos sintomas, a identificação dos agentes presentes nos locais de trabalho e o conhecimento da actividade e das condições em que esta é exercida. É indispensável verificar as relações da sintomatologia com o tempo e o local de trabalho e questionar, sempre, sobre a existência de sintomatologia em outros trabalhadores do mesmo sector de actividade.

A ocorrência simultânea do início da sintomatologia após a exposição profissional e a demonstração da associação asma/trabalho devem-nos colocar de alerta principalmente se existir exposição a factores de risco profissional reconhecidamente susceptíveis de causar asma profissional. Também a existência de factores individuais predisponentes como a atopia, os hábitos tabágicos e a existência de hiperreactividade brônquica nos devem colocar em alerta.

 O tratamento da asma profissional é em tudo idêntico ao da asma de diferente etiologia com grande destaque para o afastamento do agente causal que, obviamente, é ainda mais decisiva, sendo mesmo obrigatório ser realizada o mais cedo possível já que os atraso dessa ação pode agravar muito a história natural da doença.

 De facto, prognósticos menos favoráveis para a asma profissional são, muitas vezes a continuação da exposição profissional após a ocorrência dos primeiros sintomas e a existência de alterações obstrutivas respiratórias com carácter permanente.

Bibliografia

  • Uva, A S. O médico do trabalho e as doenças alérgicas profissionais. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho, 2000 (Cadernos Avulso 2).
  • Uva, A S. – Asma profissional: da teoria à prática. Revista Portuguesa de Pneumologia. 2008;XIV(Supl 1):S61–S70.
  • Uva A S, Leite E S. Doenças respiratórias profissionais: mais vale prevenir que remediar. Saúde & Trabalho. 2005;5:89-112.

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António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.
António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.

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