Envelhecimento e Trabalho: “velhos são os trapos”

Na atual fase de desenvolvimento da Saúde Ocupacional, ou da Segurança, Higiene e Saúde dos Trabalhadores nos Locais de Trabalho (SHSTLT) se se preferir, pretende-se um ambiente de trabalho saudável, seguro e satisfatoriamente confortável e um trabalhador saudável, ativo e produtivo, sem doenças naturais ou ocupacionais e apto e motivado para o exercício da sua atividade profissional, com satisfação e desenvolvendo-se de forma pessoal e profissional. Naturalmente em qualquer idade.

O trabalho pode afetar negativamente a saúde sendo, nos nossos dias, negligenciável a valorização do papel promotor de saúde que o trabalho deveria proporcionar. Tal é revelador da preponderância atribuída à componente preventiva dos riscos profissionais em detrimento da componente positiva (promotora) da saúde e do bem-estar, assim como dos aspetos relacionados com o desenvolvimento pessoal dos trabalhadores de que beneficiaria por certo a organização, através da valorização de tão importantes recursos estratégicos e, também, o trabalhador.

O envelhecimento da população nas sociedades do mundo ocidental tem levado a importantes mudanças dos sistemas de Segurança Social com repercussões, como acontece entre nós, na idade da reforma e, consequentemente, com a extensão da vida ativa.

Seria desejável que a “capacidade de trabalho” ao longo da vida se mantivesse nos níveis do início da atividade profissional em idades jovens. Sabe-se que o prolongamento da vida ativa é a regra no mundo ocidental, o que coloca importantes desafios em diversos contextos e também na perspetiva da Saúde Ocupacional.

Sabe-se, por exemplo, que a capacidade física, medida através da capacidade cardiorrespiratória ou da capacidade musculoesquelética, declina com a idade, para não referir a diminuição das capacidades auditiva ou visual.

Também se sabe que existe uma ampla variabilidade individual nessas vulnerabilidades muito dependente, para além de fatores individuais, de fatores relacionados com o ambiente de trabalho, da atividade desenvolvida e da organização do trabalho. E sabe-se ainda que a adoção de estilos de vida saudáveis pode influenciar positivamente a capacidade de trabalho (work ability).

Exige-se cada vez mais que a Saúde e Segurança do Trabalho não se circunscreva à prevenção dos riscos profissionais (e mesmo nesses valorizando muito mais as variáveis individuais) e valorize mais ações que promovam a “empregabilidade” do trabalhador, incrementando iniciativas que desenvolvam a aptidão “máxima” para o trabalho em toda a vida ativa.

Nos últimos anos a idade da reforma tem vindo a aumentar um pouco por toda a Europa e, obviamente, também em Portugal em que se constata ainda uma penalização crescente no que concerne às reformas antecipadas. Não será alheio a essa circunstância, entre outros, o aumento da esperança de vida e a redução da taxa de natalidade.

De facto, o envelhecimento da população nas sociedades do mundo ocidental tem levado a importantes mudanças dos sistemas de Segurança Social ainda que essa extensão da vida ativa não seja, quase sempre, acompanhada de intervenções na melhoria das condições de trabalho inerentes a tal prolongamento da vida ativa.

A decisão de trabalhar ou de se reformar depende de inúmeros fatores que estão para além do enquadramento legal nesse domínio. Tal decisão inicia-se desde logo com a resposta às perguntas: posso trabalhar? Tenho saúde para trabalhar? A que se acrescenta essa necessidade ou esse querer. A SHSTLT deveria interessar-se por estas áreas promovendo a adequação do trabalho ao trabalhador “envelhecido“, adaptando o trabalho às condições concretas relacionadas com o envelhecimento dos trabalhadores.

 

António de Sousa Uva

Lisboa, 19 de dezembro de 2018

 

Bibliografia

  • Costa, G.; Sartori, S. – Ageing, working hours and work ability. Ergonomics. 50:11 (2007) 1914-1930.
  • Ilmarinen, J. – Ageing workers. Occupational and Environmental Medicine. 58 (2001) 546-552.
  • Monge, J.; Sousa-Uva, A; Serranheira, F. et al. – O trabalhador idoso: que desafios e implicações nas situações de trabalho? E para a Saúde e Segurança do Trabalho? In SOUSA-UVA, A. (ed.) – Trabalhadores saudáveis e seguros em locais de trabalho saudáveis e seguros, Lisboa, Petrica Editores, 2011.
  • Sousa-Uva, A.; Serranheira, F. Saúde, Doença e Trabalho: ganhar ou perder a vida a trabalhar? Lisboa: Diário de Bordo, 2013.
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António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.
António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.

Um comentário em “Envelhecimento e Trabalho: “velhos são os trapos”

  1. Muito acertada a sua publicação, como costuma ser sempre tudo o que nos fala e publica.
    Em relação a este tema gostava de lhe dizer que, na minha opinião, seria muito útil para Portugal e especialmente para os trabalhadores portugueses e os Medicos que exercem a Medicina do Trabalho em Portugal, que o Professor não pense ainda em se reformar porque: Ainda pode Trabalhar, acho que tem ainda muita saúde para isso.
    Obrigada por estar aí.
    Ana Delia

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