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Implementação e avaliação de um projeto de segurança alimentar direcionado a crianças do ensino básico – Projeto “Alimento Seguro”

Resumo

As crianças são um grupo de risco em relação a doenças de origem alimentar, assim todos os esforços de prevenção são fundamentais dado o impacto que têm a longo prazo, pro-movendo a saúde infantil e estimulando estilos de vida sau-dáveis.
O presente estudo incidiu sobre uma população de 3339 alunos com idades compreendidas entre os 10 e 15 anos, numa amostra da área da Grande Lisboa. Integra o projeto “Alimento Seguro” criado pela Divisão de Riscos Alimentares da ASAE, como parte da estratégia de Comunicação dos Ris-cos Alimentares.

Os objetivos eram proporcionar formação na área da segurança alimentar, obter informação sobre o grau de conhecimentos sobre estes temas com preenchimento de inquéritos à priori e depois da formação, testando o impacto da mesma. Os alunos revelaram maiores conhecimentos sobre “Rotulagem” (percentagens de respostas certas entre 68,9% – 97,4%) e “Lavar as mãos” (84,9% – 92,6%) e menores percentagens de respostas certas nas questões sobre “Aditivos” (34,7% – 60,7%).

Foi calculada a percentagem de acréscimo de respostas cer-tas, revelando valores de melhoria que atingiram em algu-mas questões valores entre os +126% e +534%, demons-trando o impacto muito positivo da formação.

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1 – Introdução

Este estudo incide sobre a implementação de um projeto de segurança alimentar direcionado a crianças do ensino bási-co, avaliando os seus conhecimentos prévios, tentando am-pliá-los através de sessões de formação adequados à sua idade e avaliando a aquisição de novos conhecimentos nesta área.
Os relatórios europeus (ECDS2010) e americanos (CDC2009) revelam que metade dos casos de de doenças de origem alimentar ocorrem em crianças, a maioria delas menores de 15 anos.
As crianças têm de facto maior risco que outros grupos demográficos (Buzby 2001). Devido ao seu menor peso uma dose mais pequena de patógenos ou toxinas é suficiente para causar a doença, aliado a um sistema imune ainda em formação, estômago com menor produção de ácido (Haffejee 1995) tornam-as um grupo de risco extremamente importante quando se planeiam ações de prevenção na área da segurança alimentar.
Devem ser feitos esforços de prevenção da doença direcio-nados para as crianças, para promover simultaneamente a saúde infantil num curto prazo e estimular estilos de vida saudáveis com benefícios que perduram pela sua vida (Chang et al, 2007 ; Eves et al 2010).

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1.2- Objetivo principal

O presente estudo pretendeu incentivar na comunidade estudantil, uma nova abordagem relativamente à segurança alimentar. O principal objetivo foi proporcionar informação útil e atual nessa área aos alunos, com idades compreendi-das entre os 10 e os 15 anos de idade, que possibilitasse a mudança de alguns comportamentos simples em casa dimi-nuindo o risco de exposição a algumas doenças. Foi parte importante da origem do projeto “ Alimento Seguro” criado pela Divisão de Riscos Alimentares da ASAE, como parte da estratégia de Comunicação dos Riscos Alimentares.
Os objetivos específicos durante a formação foram:

  1. Obter informação sobre o grau de conhecimento sobre estes temas à priori;
  2. Interagir com as crianças de forma a cativar a sua atenção e potenciar o efeito da formação;
  3. Determinar o grau de aquisição de conhecimentos após a realização da formação.

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2 – Material e Métodos

Este estudo teve como base uma população de 3339 alunos do 6º ano de escolaridade de escolas de agrupamentos da Grande Lisboa, tendo todos recebido a formação sobre se-gurança alimentar. Tentou-se fazer a escolha das escolas de forma a que fossem representativas do agrupamento, op-tando primordialmente pelas escolas com maior número de alunos que possibilitassem atingir, com maior facilidade, uma amostra representativa. Houve alguma relutância por parte das várias escolas em aceder ao pedido, devido à ima-gem errada que algumas escolas têm da ASAE e por teme-rem a possibilidade de inspeções durante a deslocação de técnicos da ASAE às suas instalações.

Os Concelhos que participaram do estudo foram:

  • Concelho da Amadora, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Odi-velas, Oeiras, Sintra,Vila Franca de Xira.

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2.1 – Amostra

A amostra é constituída por 1407 alunos de escolas do ensi-no básico da região da Grande Lisboa que naquele momento frequentam o 6º ano.

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2.2 – Materiais Pedagógicos

Foram utilizados diferentes recursos na formação: inquéri-tos em formato papel, projeção de diapositivos, um jogo de “quantos queres”, criado especificamente para este fim, também impresso em papel e um pequeno filme sobre boas práticas de higiene exibido no final da formação.
A formação foi dada ao total de alunos (3339), mas só foram feitos os inquéritos referentes ao número necessário para tornar a amostra representativa da Grande Lisboa (1407 alunos). A duração da formação foi de 45 minutos em cada sala de aula ou auditório.

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2.3 – Inquéritos

Foram desenhados inquéritos especificamente para este estudo, com a ajuda dos técnicos superiores da ASAE e com sugestões do sociólogo Nelson Trindade (responsável pela empresa Sociositemas, especializado em Pedagogia Experi-encial), tendo como base a linguagem utilizada nos livros de Ciência do 6º ano de escolaridade.
Após a elaboração dos inquéritos e antes de o dar por con-cluído, foi efetuado um pré-teste, que foi submetido a 20 crianças, na presença dos pais, com idades compreendidas entre os 6 anos e os 14 anos, para que se percebesse o grau de dificuldade na interpretação das perguntas, o seu grau de subjetividade e proceder em tempo útil às modificações necessárias.
O inquérito foi facultado uma vez antes da formação e outra imediatamente após a formação. Este esquema visou validar a comparação entre as respostas e tentar aferir o impacto da formação nesses alunos.
Optou-se por perguntas com resposta fechada, que foram posteriormente submetidas a análise estatística.

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2.4 – Análise Estatística

O estudo abrangeu 9 concelhos da região da Grande Lisboa e foi realizado em escolas básicas do 2º ciclo. O procedimen-to utilizado foi o seguinte:

  1. Foram distribuídos aos alunos inquéritos contendo algumas questões no âmbito da segurança alimen-tar e foi pedido para estes responderem com base nos conhecimentos que tinham;
  2. De seguida foi lecionada uma formação sobre os assuntos focados nesse inquérito;
  3. Terminada a formação referida em 2) foi solicitado de novo aos alunos para responderem ao mesmo inquérito referido em 1) fazendo uso da informa-ção e novos conhecimentos adquiridos.

Os dados foram recolhidos numa base de dados Excel 2011 e a análise estatística foi realizada com o software SPSS® (IBM Corp. Released 2013. IBM SPSS Statistics for Windows, Version 22.0. Armonk, NY: IBM Corp).

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3 – RESULTADOS

3.1 – Caracterização da amostra

A amostra inicial era constituída por 1409 alunos, tendo dois destes sido retirados porque devido à sua idade (17 e 18 anos) já se encontravam fora do âmbito do estudo. As vari-áveis de caracterização da amostra (consideradas no inqué-rito) foram o concelho da escola que os alunos frequenta-vam, assim como o sexo e idade dos alunos. O inquérito colocou 13 questões aos alunos relacionadas com a seguran-ça alimentar.

figra1

A análise da figura 1 permite verificar que a amostra dos alunos foi feita de acordo com a distribuição da NUTS III (Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísti-cos) para os vários concelhos. Assim, os concelhos com mais alunos foram Lisboa (22,89%) assim como o concelho de Sintra (16,13%). Os concelhos onde participaram um me-nor número de alunos foram os concelhos de Mafra (3,91%) e Oeiras (7,04%). A percentagem dos alunos que participam no estudo nos restantes 5 concelhos variaram entre 8% e 12% da amostra.

2

A análise da figura 3 permite observar que a idade mais fre-quente dos alunos é 11 anos (823 alunos) o que se encontra de acordo com o ano escolar que frequentam e as idades menos frequentes são os 9 anos e os 15 anos com 1 e 17 alunos respetivamente. Os restantes alunos têm idades compreendidas entre os 12 e os 14 anos e ainda temos 26 alunos com 10 anos.

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3.2 – Estudo comparativo dos resultados obtidos antes e depois da formação

Com o objetivo de avaliar a importância da formação reali-zada e verificar se as melhorias foram significativas no que diz respeito ao conhecimento adquirido pelos alunos sobre os temas abordados no inquérito apresentamos os seguin-tes resultados.

3

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Na análise global dos dois gráficos da figura 33 é notório que após a formação, em todos os concelhos, se observou um aumento da resposta correta à questão 1 tendo desapa-recido quase na totalidade as respostas “Não sei” . Podemos observar que antes da formação o concelho que teve maior número de respostas “Não sei” foi o concelho de Mafra (54%) e Sintra (43%) e foi nos concelhos de Lisboa e Sintra que se observou um maior número de respostas incorretas, 32% e 25%, respetivamente. Comparando os resultados an-tes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz respeito à percentagem de respostas corretas foram: Amadora – +63%, Cascais – +100%, Lisboa – +213%, Loures – +64%, Mafra – +162%, Odivelas – +169%, Oeiras – +88%, Sintra – +190%, Vila Franca de Xira – +102% (valores obtidos com a análise das tabelas que se encontram no anexo A).

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Na análise global dos dois gráficos da figura 34 mais uma vez é visível a concentração das respostas dos alunos na res-posta correta da questão 2 após a formação em todos os concelhos. Podemos observar que antes da formação o con-celho onde se observou um maior número de respostas “Não sei” foi o concelho de Vila Franca de Xira (52%) e Lis-boa (48%) e foi nos concelhos de Lisboa e Sintra onde se observou um maior número de respostas incorretas, 37% e 29%, respetivamente. Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários conce-lhos no que diz respeito à percentagem de respostas corre-tas foram: Amadora – +112%, Cascais – +42%, Lisboa – +534%, Loures – +41%, Mafra – +136%, Odivelas – +147%, Oeiras – +137%, Sintra – +329%, Vila Franca de Xira – +370%.

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Na análise global dos dois gráficos da figura 35 mais uma vez é visível a concentração das respostas dos alunos na respos-ta correta da questão 3.1 após a formação em todos os con-celhos. Podemos observar que antes da formação o conce-lho onde se observou um maior número de respostas “Não sei” foi o concelho de Lisboa (25%) e Sintra (13%) assim co-mo também foi nestes concelhos onde se observou um maior número de respostas incorretas, 14% e 8%, respetiva-mente. Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz res-peito à percentagem de respostas corretas foram: Amadora – +7%, Cascais – +0%, Lisboa – +77%, Loures – +1%, Mafra – +4%, Odivelas – +8%, Oeiras – +2%, Sintra – +27%, Vila Franca de Xira – +3%.

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Na questão 3.2 não se observou grandes diferenças nos vá-rios concelhos no tipo de respostas dadas pelos alunos antes e depois da formação. Na verdade, constatou-se que foi a questão que menos dúvidas gerou nos alunos. Este compor-tamento é bem visível se olharmos para os valores de acréscimos obtidos quanto ao número de respostas corretas nos vários concelhos: Amadora – +1.5%, Cascais – 0%, Lisboa – +1.9%, Loures – 0%, Mafra – 0%, Odivelas – 0%, Oeiras – 0%, Sintra – +3.7%, Vila Franca de Xira – 1%.

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Na análise global dos dois gráficos da figura 37 mais uma vez é visível a concentração das respostas dos alunos na respos-ta correta da questão 3.3 após a formação em todos os con-celhos. Podemos observar que antes da formação o conce-lho onde se observou um maior número de respostas “Não sei” foi o concelho de Lisboa (36%) e Sintra (22%) assim co-mo também foi nestes concelhos onde se observou um mai-or número de respostas incorretas, 18% e 17%, respetiva-mente. Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz res-peito à percentagem de respostas corretas foram: Amadora – +23%, Cascais – +7%, Lisboa – +144%, Loures – +11%, Mafra – +27%, Odivelas – +11%, Oeiras – +13%, Sintra – +60%, Vila Franca de Xira – +11%.

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Na análise conjunta dos dois gráficos observamos que com exceção dos concelhos de Lisboa e Sintra, as diferenças exis-tentes nas respostas antes e depois da formação são peque-nas. Assim, em termos de acréscimos no número de respostas corretas obtemos o seguinte: Amadora – +1%, Cascais – +0.5%, Lisboa – +102%, Loures – 0%, Mafra – 0%, Odivelas – +0.8%, Oeiras – 0.6%, Sintra – 28%, Vila Franca de Xira – 0%.

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Na análise conjunta dos dois gráficos relativos à questão 4.2 observamos que com exceção do concelho de Lisboa, as diferenças existentes nas respostas antes e depois da forma-ção são menos significativas do que as obtidas em outras questões. Assim, em termos de acréscimos no número de respostas corretas obtemos o seguinte: Amadora – +11%, Cascais – 0%, Lisboa – +42%, Loures – 4%, Mafra – 0%, Odi-velas – +5%, Oeiras – 0%, Sintra – 13%, Vila Franca de Xira – 2%.

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Na análise conjunta dos dois gráficos relativos à questão 4.3 observamos que não ocorrem grandes diferenças nas respostas antes e depois da formação. Antes da formação grande parte dos alunos já responderam corretamente à questão. Assim, em termos de acréscimos no número de respostas corretas obtemos o seguinte: Amadora – +6%, Cascais – 0%, Lisboa – +7%, Loures – 7%, Mafra – 0%, Odi-velas – +7.5%, Oeiras – 5%, Sintra – 1%, Vila Franca de Xira – 2%.

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Na análise global dos dois gráficos da figura 41 mais uma vez é visível a concentração das respostas dos alunos na respos-ta correta da questão 5.1 após a formação em todos os con-celhos. Podemos observar que antes dos alunos receberem a formação os concelhos onde se observou um maior núme-ro de respostas “Não sei” foram os concelhos de Lisboa (41%) e Amadora (28.5%) e nos concelhos de Lisboa e Sintra observaram-se um maior número de respostas incorretas, 20% e 19.8%, respetivamente. Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz respeito à percentagem de respostas corretas foram: Amadora – +45%, Cascais – +6%, Lisboa – +173%, Loures – +13%, Mafra – +38%, Odivelas – +25%, Oei-ras – +13%, Sintra – +80%, Vila Franca de Xira – +37%.

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Na análise global dos dois gráficos da figura 42 mais uma vez é visível a concentração das respostas dos alunos na respos-ta correta da questão 5.2 após a formação em todos os con-celhos. Podemos observar que antes da formação o conce-lho onde se observou um maior número de respostas “Não sei” foi os concelhos de Mafra (18%) e Amadora (17%) e foi nos concelhos da Amadora e Odivelas onde se observou um maior número de respostas incorretas, 27% e 24%, respeti-vamente. Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz respeito à percentagem de respostas corretas foram: Ama-dora – +92%, Cascais – +6%, Lisboa – +39%, Loures – +26%, Mafra – +63%, Odivelas – +32%, Oeiras – +9%, Sintra – +35%, Vila Franca de Xira – +54%.

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A observação dos dois gráficos da figura 43 permite mais uma vez verificar a concentração das respostas dos alunos na resposta correta da questão 5.3 após a formação em to-dos os concelhos. Podemos observar que antes da formação o concelho onde se observou um maior número de respos-tas “Não sei” foi o concelho de Lisboa (27.3%) e Amadora (27%) e foi nos concelhos de Lisboa e Sintra onde se obser-vou um maior número de respostas incorretas, 38% e 33%, respetivamente. Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz respeito à percentagem de respostas corretas fo-ram: Amadora – +111%, Cascais – +24%, Lisboa – +228%, Loures – +47%, Mafra – +63%, Odivelas – +70%, Oeiras – +26%, Sintra – +134%, Vila Franca de Xira – +67%.

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Analisando os resultados obtidos nos dois gráficos da figura 44 é visível uma grande alteração nas respostas dadas pelos alunos à questão 6 após a formação em todos os concelhos. Podemos observar que antes da formação foram vários os concelhos onde os alunos responderam de forma incorreta à questão. Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz respeito à percentagem de respostas corretas foram: Amadora – +163%, Cascais – +216%, Lisboa – +352%, Loures – +172%, Mafra – +136%, Odivelas – +209%, Oeiras – +226%, Sintra – +475%, Vila Franca de Xira – +126%. Nesta questão foi onde se observou as maiores alterações (para melhor) nas respostas dadas pelos alunos antes e depois da formação.

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Na análise global dos dois gráficos da figura 45 mais uma vez é visível a concentração das respostas dos alunos na respos-ta correta da questão 7 após a formação em todos os concelhos. Podemos observar que antes da formação o concelho onde se observou um maior número de respostas “Não sei” foi o concelho de Lisboa (45%) . Comparando os resultados antes e após a formação o acréscimo obtido para os vários concelhos no que diz respeito à percentagem de respostas corretas foram: Amadora – +13%, Cascais – +9.6%, Lisboa – +93%, Loures – +11%, Mafra – +6%, Odivelas – +7%, Oeiras – +17%, Sintra – +48%.

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4 – Discussão

4.1 – Importância da sensibilização das crianças sobre segurança alimentar

O projeto foi pensado para um segmento da população, a comunidade estudantil dos 10 anos de idade até aos 15 anos, reconhecendo a pertinência de uma nova abordagem relativamente à segurança alimentar e visando o desenvolvimento de boas práticas, não só em ambiente escolar mas idealmente exportando-as para as suas casas e incorporan-do-as no seu dia-a-dia.
Esta faixa etária é considerada um grupo de elevado risco (Marcus 2008) sendo que metade dos casos de doenças de origem alimentar ocorrem em crianças, a maioria abaixo dos 15 anos (ECDS 2010; CDC 2009).

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4.2 – Particularidades da aprendizagem nestas idades

extremamente importante, para atingir o objetivo de insti-tuir boas-práticas que perdurem a médio/longo prazo, que as crianças entendam a relação causa-efeito entre a presen-ça de microorganismos e o maior risco de aparecimento de algumas doenças (Prochaska 2008; Eves et al 2008). Experi-ências práticas que levem à “vizualização” dos microorganis-mos potenciam as ações de formação aumentando os co-nhecimentos e melhorando os comportamentos em relação a segurança alimentar (Losasso 2014). Com este fim foram utilizados o jogo e o vídeo tendo despertado grande interes-se e interatividade entre os alunos enquanto os sensibilizava para os temas principais.

A escolha dos temas incidiu naqueles que possibilitassem a instituição de boas práticas e bons hábitos de consumo com impacto direto na vida dos alunos:

  • Aditivos – pela sua enorme importância e risco de exposição do publico alvo foi um dos temas com maior realce durante a formação dada às crianças, tentando consciencializá-las para os efeitos adversos dos aditivos e alertá-los para os identificarem e procurarem nos rótulos dos alimentos consumidos.
  • Lavar as mãos – este tema mereceu grande destaque na apresentação, com inclusão de um vídeo, devido ao grande impacto que esta boa-prática, se instituída pelas crianças, poderia ter na redução de incidência de toxicoinfeções alimentares.
  • Rotulagem – Apesar de não participarem diretamente na compra dos alimentos, o cuidado de consultar o rotulo imediatamente antes do consumo pode prevenir consumo de alimentos fora de prazo.
  • Controlo de temperatura – este ponto foi focado na apresentação, chamando a atenção para a importância do controlo da temperatura dos frigoríficos e da distribuição dos diferentes tipos de alimento pelas diferentes zonas do frigorífico, assegurando assim o correto armazenamento dos alimentos.

De facto, importa que os consumidores aprendam, desde uma tenra idade a manipular adequadamente os alimentos para prevenir o crescimento microbiano (armazenamento correto respeitando a cadeia de frio), para inativar ou reduzir o número de microrganismos presentes nos alimentos crus (cozer até às temperaturas adequadas) e para evitar a contaminação cruzada dos microrganismos desde os alimen-tos crus até aos alimentos cozinhados prontos a comer (limpeza e manuseamento adequado de produtos alimentares bem como das superfícies e utensílios que entrem em contacto com os mesmos) (Medeiros et al., 2001a; de Jong et al., 2008).

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4.3 – Conhecimento prévio

O inquérito preenchido antes da sessão de formação permitiu recolher informação fidedigna sobre o conhecimento prévio dos alunos relativamente às temáticas em estudo.

No presente estudo houve no primeiro inquérito grande discrepância na taxa de respostas certas entre os diferentes grupos de questões. Os grupos de perguntas que tiveram, no primeiro inquérito, percentagens de respostas certas mais altas foram das questões Q3 –“Rotulagem” (Q3.1 – 83,5%; Q3.2 – 97,4%; Q3.3 – 68,9%) e Q4 – “Lavar as mãos” (Q4.1 – 84,9%; Q4.2 – 89%; Q4.3 – 92,6%) relevando o conhecimento dos alunos sobre a importância do ato de lavar as mãos e da informação contida no rótulo.

Dentro dos vários temas, no “lavar as mãos” os resultados obtidos são geralmente os melhores. Num estudo 98% das crianças (5-7 anos) inquiridas sabiam da necessidade desta boa prática (Eves et al, 2010), outros com resultados mais baixos- 48,8% (Ovca 2014) mas ainda assim entre os mais altos quando comparado com os outros temas. No estudo de Hapalaa (2004) apesar de 73% saberem da necessidade de lavar as mãos apenas 29% o fazia na escola antes de co-mer. Em todos estes estudos com crianças o tema “Rotulagem” não foi abordado, não existindo por isso termo de comparação.

Por outro lado os grupos em que os alunos tiveram mais dificuldade, com menores percentagens de respostas certas foram Q1 – “Micróbios” (41,8%); Q2 e Q5 “Aditivos” (Q2 – 34,7%; Q5.1 – 59,6%; Q5.2 – 60,7%; Q5.3 – 51,2%) sendo a Q6 sobre colocação de latas abertas no frigorífico a que valor mais baixo número de respostas corretas teve no primeiro inquérito – 26,4%. O tema do armazenamento e refrigeração foi nos outros estudos um dos temas com baixo acerto de respostas 55% (Eves et al, 2010), 13,4% (Ovca 2014).

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4.4 – Conhecimento adquirido com a ação de formação

Qualquer ação educativa deve ser acompanhada de uma monitorização e/ou avaliação, de forma a perceber a sua eficácia, identificar potenciais melhorias e em último caso, justificar a disponibilização dos recursos necessários. O objetivo do segundo inquérito era avaliar o impacto da for-mação através do grau de conhecimentos adquiridos. Quan-to ao previsível impacto da formação o único estudo semelhante, com comparação antes e depois da formação, que foi consultado (Losasso 2014) exibia melhorias na taxa de respostas certas de 30 a 40 % nos grupos em que tinha havido maior impacto.

No presente estudo o impacto maior da formação foi nos grupos de perguntas em que os alunos tinham menor co-nhecimento prévio, passando a ter percentagens de respos-tas certas de Q1- “Micróbios” (93,4%); Q2 e Q5 “Aditivos” (Q2 – 89,8%; Q5.1 – 88,8%; Q5.2 – 80,7%; Q5.3 – 92,5% ) e Q6 – 89,3%. Estes resultados, extremamente satisfatórios, traduzem melhorias significativas das percen-tagens de respostas certas entre os 20 % (Q5.2) e os 55,1% (Q2) . São semelhantes aos observados por Losasso (2014) que estudou o impacto de uma campanha educacional leva-da a cabo com 249 crianças italianas, com idades entre os 9 e 11 anos. Foram utilizados muitos materiais pedagógicos, incluindo filmes e experiências que maximizassem a visuali-zação dos microorganismos por parte das crianças. Foram feitas culturas de bactérias a partir do ar, saliva e mãos (limpas e sujas) sendo posteriormente observadas. O facto de se terem obtidos resultados semelhantes com menos meios e com maior facilidade de replicação nas diferentes escolas, deve ser considerado um fator bastante positivo deste projeto.

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4.5 – Recetividade das escolas e a imagem da ASAE

O objetivo deste trabalho foi não só avaliar o conhecimento dos alunos e o impacto das formações, como também gerar um efeito positivo decorrente das ações de formação nos alunos. Com este propósito, foi conceptualizado um plano, foram criados os materiais, foram ministradas as formações e posteriormente avaliadas quantitativamente. Todo este processo levou à concretização da presença da ASAE nas escolas, assumindo um papel ativo na prevenção de riscos e na salvaguarda da saúde pública numa das faixas etárias mais vulneráveis da sociedade. Este papel da ASAE é por vezes desconhecido da população geral, e diferente do vei-culado na comunicação social. Embora utilizando apenas uma abordagem qualitativa e algo subjetiva, foram recolhidas ao longo do processo algumas opiniões de alunos e professores que permitiram perceber alguns efeitos colaterais deste trabalho.

Foi extremamente gratificante o elevado empenho, interes-se e grau de participação dos alunos, refletido nas altas taxas de resposta (inclusive tendo o cuidado de escolher a opção “não sei”). Com as suas dúvidas e questões pertinentes durante a formação permitiram que esta fosse evoluindo e melhorando com o seu feedback.

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5 – Conclusão

Um dos objetivos do estudo era uma avaliação do grau de conhecimentos dos alunos antes da formação. Perante os resultados obtidos através da análise estatística às respostas dos inquéritos, foi possível detetar grande variação no grau de conhecimentos à priori nas diversas áreas abordadas e inquiridas.

Perante os resultados obtidos poder-se-ia concluir que os temas com melhor taxa de conhecimentos, “Rotulagem” e “Lavar as mãos”, fossem de menor importância em termos da necessidade de inclui-los na formação. Contudo, o facto de os alunos revelarem conhecimento sobre estes temas não implica que os pratiquem na sua rotina com a regulari-dade desejada, pelo que, de futuro, talvez se pudesse adap-tar estas questões para aferir não o grau de conhecimento mas a regularidade com que lavam as mãos antes de comer ou consultam o prazo de validade antes de comer algum alimento do frigorifico, por exemplo. Além disso a importân-cia destes temas e o seu impacto em Segurança Alimentar tornam-nos temas obrigatórios neste tipo de formação sen-do sempre útil o refrescar da importância deste tipo de comportamentos.

Se inicialmente havia alguma relutância em aceitar a presen-ça da ASAE nas escolas, hoje em dia são estas a solicitar a presença de profissionais da ASAE para apresentação do projeto “Alimento Seguro”. Alcançou-se deste modo um objetivo não previsto, o de dar a conhecer uma faceta me-nos conhecida da ASAE: a sua vertente preventiva.

A ASAE implementou o projeto a nível nacional e apresen-tou-o à EFSA onde obteve também uma aceitação excelen-te, estando presente na última Conferência Científica da EFSA em Milão no ano de 2015.

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Fonte (ASAE): http://bit.ly/2heCMEY

Bibliografia:

Paula Quina Bettencourt Alves1, Maria Manuel Mendes2, João Ribeiro Lima3
1 Mestre em Medicina Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa
2 Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, Departamento de Riscos Alimentares e Laboratórios
3 Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

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Márcia Cardoso

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Marketeer at Ábaco Consultores
Márcia Cardoso, licenciada em Marketing. Actualmente desenvolve funções na Ábaco Consultores.
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