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LMERT na prestação de cuidados de higiene a idosos: absentismo laboral

Introdução

As Lesões Músculo-Esqueléticas (LME) dizem respeito a um conjunto de doenças inflamatórias e degenerativas que podem afetar os músculos, tendões, cartilagens, ossos e nervos. Quando são provocadas ou agravadas pelo trabalho designam-se por Lesões Músculo-esqueléticas Relacionadas com o Trabalho (LMERT). Estas têm uma etiologia multifatorial e constituem um dos mais atuais problemas de saúde dos trabalhadores.

Vários fatores de risco têm sido identificados na literatura que contribuem para o desenvolvimento de LMERT. Na prestação de cuidados de higiene a idosos, os trabalhadores estão expostos a uma sobrecarga física, devido à sua atividade que se relacionam com o levantamento, a movimentação ou o transporte e o (re)posicionamento dos utentes, conduzindo a um elevado risco de se desenvolverem lesões músculo-esqueléticas. As regiões do corpo mais afetadas são a lombar, pescoço, ombros, antebraços e mãos. Um estudo realizado por Faucett em 2013, revelou que 42% dos trabalhadores fazia entre uma a dez transferências de utentes por dia, por exemplo, da cama para a cadeira e 15% até vinte transferências por dia e que a taxa de lesões dos trabalhadores que prestam cuidados a idosos é de 61% devido ao esforço excessivo. Aliás, vários autores têm demonstrado que existe uma maior incidência de lesões músculo-esqueléticas e absentismo em indivíduos que estão expostos a um elevado nível de carga física.

De facto, as LMERT constituem uma percentagem das doenças profissionais que cursam com absentismo, custando à Europa vários milhões de euros. No Reino Unido, com base num inquérito realizado por Health and Safety Executive em 2009-2010, cerca de 37% dos trabalhadores faltaram ao trabalho devido a lesões músculo-esqueléticas. A maioria das LMERT, são lesões cumulativas resultantes da exposição repetida a esforços mais ou menos intensos ao longo de um período de tempo. Na Austrália, cerca de um quarto do tempo perdido (24,3%) foi atribuído a lesões músculo-esqueléticas.

Em 2001, cerca de meio milhão de trabalhadores nos Estados Unidos faltaram ao trabalho devido a problemas músculo-esqueléticos e cerca de dois terços (67%) dos casos relatados com lesões músculo-esqueléticas, resultou de esforço excessivo.

Em suma, as lesões músculo-esqueléticas são uma perturbação desenvolvida ou agravada no local de trabalho, devido à exposição continuada de fatores de risco, tais como, postura inadequada, movimentos repetitivos, aplicação de força excessiva, entre outros.

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Objetivos

Quantificar o absentismo laboral associado a lesões músculo-esqueléticas por região anatómica nos colaboradores que prestam cuidados de higiene a idosos.

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RESULTADOS

A população em estudo é constituída por 70 trabalhadores, de seis Instituições localizadas na zona centro do país, que prestam serviço de cuidados de higiene a idosos. Do total dos 70 questionários apenas responderam 62, o que corresponde a uma taxa de resposta de 88,6%.

Os dados expostos remetem-nos para um grupo profissional jovem adulto, do género feminino e a maioria possui o 9º ano. A média de horas trabalhadas por semana é de 38,6 horas e a média de anos de exercício na profissão atual é de 7,47 anos.

Constatou-se, que as ausências ao trabalho por lesões músculo-esqueléticas o que prevaleceu foram a zona lombar e pés (9,7% para ambas). Estes trabalhadores faltaram ao trabalho entre 4 dias a 7 meses. Um estudo realizado por Gurgueira (2003), demonstrou que a dor lombar é uma das maiores causas de absentismo e de procura médica entre os trabalhadores. Estes resultados acabam por ser concordantes com outras evidências relatadas em estudos anteriores.

Relativamente à região ombros, 8,1% dos trabalhadores ficaram impedidos de trabalhar entre 4 dias a 6 meses devido a lesões nesta região. Ao nível da região pescoço apenas ficaram impedidos de trabalhar 4,8% dos trabalhadores, estas ausências variam entre 2 dias a 9 meses. Estes resultados são consensuais, uma vez que a generalidade dos autores de estudos sobre o tema revelam que as exigências posturais exigidas pela atividade de trabalho, nomeadamente a flexão cervical e a elevação dos membros superiores, muitas vezes acima da altura dos ombros, fazem com que surjam lesões.

Entre 2 dias a 8 meses faltaram ao trabalho 6,5% dos trabalhadores devido a problemas na zona dorsal e punhos/mãos. A postura exigida pela atividade de trabalho, uma vez que a maiorias dos idosos são dependentes, faz com que surjam lesões críticas e por vezes crónicas ao nível da coluna vertebral. As lesões ao nível de punhos/mãos estão associados a movimentos repetitivos e à aplicação de força manual, uma vez que a maioria dos trabalhadores não têm equipamentos auxiliares. Ao nível da União Europeia (UE) o trabalho repetitivo é o fator de risco mais frequente no desenvolvimento de lesões músculo-esqueléticas.

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CONCLUSÕES

Face aos resultados obtidos verificou-se que a maioria dos trabalhadores teve ausências ao trabalho durante meses devido a problemas músculo-esqueléticas na zona lombar, o que vai ao encontro da ideia generalizada e evidenciada em outros estudos, que indicam que as lesões nesta área anatómica são as mais frequentes.

Também a região dos ombros e a zona dorsal foram significativamente fustigadas, pois foram evidenciadas ausências ao trabalho até sete meses devido a lesões nestas regiões anatómicas.

Considera-se pertinente a utilização de equipamentos auxiliares na movimentação e transporte de utentes, de forma a diminuir a percentagem de absentismo laboral associado a lesões por esforço excessivo ou posturas “penosas”.

No sentido de contrariar estes resultados, justifica-se a necessidade de programas de prevenção e controlo das lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho, de forma a diminuir as lesões e consequente diminuição do absentismo laboral.

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Bibliografia

Chagas D. Absentismo laboral associado a lesões músculo-esqueléticas  na prestação de cuidados a idosos. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional. 2016, volume 1, 1-5.

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Dina Chagas

Dina Chagas

Doutorada em Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho – Ramo Científico de Medicina Preventiva e Saúde Pública, pela Universidade de León, Espanha. Pós-Graduada em Segurança e Higiene do Trabalho pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e detentora do Título Profissional para exercer a profissão de Técnico Superior de Segurança no Trabalho.
É professora convidada no Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC) e (co)autora de vários artigos científicos publicados em revistas e em capítulos de livros nacionais e internacionais nos diversos domínios da saúde e segurança ocupacional.
Dina Chagas

Dina Chagas

Doutorada em Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho – Ramo Científico de Medicina Preventiva e Saúde Pública, pela Universidade de León, Espanha. Pós-Graduada em Segurança e Higiene do Trabalho pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e detentora do Título Profissional para exercer a profissão de Técnico Superior de Segurança no Trabalho. É professora convidada no Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC) e (co)autora de vários artigos científicos publicados em revistas e em capítulos de livros nacionais e internacionais nos diversos domínios da saúde e segurança ocupacional.

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