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Os Citostáticos – Quando a terapêutica pode ser a causa da doença

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Os citostáticos, vulgarmente conhecidos como citotóxicos ou antineoplásicos, são medicamentos ou fármacos utilizados para parar a proliferação e crescimento de uma célula neoplásica. São utilizados no tratamento de neoplasias malignas quando a cirurgia ou a radioterapia não são possíveis ou se mostraram ineficazes, ou ainda como adjuvantes da cirurgia ou da radioterapia como tratamento inicial.

Os citostáticos têm sido cada vez mais utilizados quer na terapêutica de doenças malignas quer com intuitos profiláticos (terapêutica adjuvante). O seu alvo principal são as células anormais ou malignas (neoplásicas), embora, os farmácos atualmente disponíveis também podem potencialmente afetar o genoma (efeito genotóxico) das células normais condicionando assim efeitos adversos para a saúde quer dos doentes tratados quer dos profissionais de saúde a eles expostos. Os riscos na saúde associados à exposição ocupacional aos citostáticos/citotóxicos já são conhecidos desde os anos 70 do século XX. Os efeitos adversos mais relatados incluem a mutagenicidade, efeitos tóxicos sobre a reprodução e desenvolvimento, e cancro. Para além dos doentes com cancro, expostos a efeitos genotóxicos sobre as células normais por inerência da terapêutica da sua patologia, determinados grupos profissionais estão expostos, pelas exigências da sua atividade de trabalho, a estes fármacos. Destacam-se os enfermeiros, responsáveis pela a administração desta medicação, e os profissionais das farmácias hospitalares (técnicos de farmácia e farmacêuticos), responsáveis pela sua preparação.

A exposição profissional aos citostáticos/citotóxicos ocorre preferencialmente por via cutânea, resultante da manipulação direta dos fármacos ou por contacto com superfícies e equipamentos contaminados. A potencial exposição aos citostáticos poderá ocorrer durante: a) preparação, b) administração, c) transporte, d) armazenamento, e) manuseamento de resíduos biológicos (excreções ou secreções) dos doentes tratados, f) manuseamento e eliminação de resíduos de citotóxicos e g) limpeza de derrames. Alguns estudos indicam que, nas situações anteriormente referidas, existe a possibilidade da contaminação generalizada das superfícies de trabalho, paredes, pavimentos, roupas de vestir e de cama de doentes tratados e recipientes que contêm ou contiveram secreções e excreções destes. Apesar da exposição ocupacional aos citostáticos ocorrer preferencialmente por via cutânea, existe ainda a possibilidade desta ocorrer por via inalatória pois existem citostáticos que vaporizam à temperatura ambiente. Os principais profissionais expostos nesta situação são os técnicos de farmácia durante a preparação dos citostáticos. Durante a fase de preparação dos citostáticos, devem ser implementadas as medidas de controlo de engenharia, tais como filtros HEPA (High Efficency Particulate Air) e câmaras de fluxo laminar, atualmente generalizadas. Estudos sugerem que pode existir contaminação das superfícies exteriores da câmara e de zonas relativamente distantes resultante quer da dispersão área do agente quer de transferência por mãos e objetos contaminados. Não obstante à implementação das medidas de controlo de engenharia, o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI), tais como as luvas de nitrilo (cano alto), a bata estéril impermeável, o respirador, a touca e os óculos de proteção, deve ser generalizado. As luvas são permeáveis a maioria dos citostáticos e por isso recomenda-se a mudança de luvas a cada 30 minutos de utilização.

Sobre as atividades/tarefas de enfermagem, alguns estudos comprovam que durante a administração dos citostáticos há possibilidade de contaminação do ambiente e superfícies, nomeadamente no exterior das bombas infusoras, nos braços das cadeiras usadas para administrar os citostáticos e nas tampas dos contentores de resíduos. No entanto, sobre a contaminação das zonas de administração, existem diferenças entre o ambulatório (hospital de dia) e o internamento (enfermaria), associando-se este último a maiores níveis de contaminação. Os doentes quando tomam esta terapêutica, excretam metabolitos de citostáticos através da urina e sudação, constituindo assim uma possível fonte adicional de contaminação. Podem existir quantidades significativas de citostáticos na roupa dos doentes. Quem lida com as tarefas de recolha de roupa suja e eliminação das secreções/excreções dos doentes deve usar os EPI adequados (luvas, óculos de proteção, bata impermeável e touca).

Além da já referidas atividades que potencialmente podem expor os trabalhadores aos citostáticos, existe ainda a possibilidade da exposição ocorrer durante o transporte ou durante os procedimentos de eliminação de resíduos de citostáticos. Durante o transporte dos citostáticos, estes devem ser transportados em embalagens seladas, após a sua preparação, dentro de malas térmicas devidamente identificadas com a simbologia de perigo químico de citostáticos. O uso de luvas pelos trabalhadores que realizam o transporte não é consensual. Estas podem ser veículo de contaminação cruzada. Os trabalhadores que fazem o transporte de citostáticos só devem usar luvas em caso de verificação de derrames acidentais. Para os trabalhadores responsáveis pela limpeza e recolha de resíduos de citostáticos, é importante o uso efetivo dos EPI, igual à dos trabalhadores que preparam os citostáticos.

Apesar de comprovadamente existir potencial risco de contaminação do ambiente e das superfícies, os produtos de limpeza utilizados nem sempre são eficazes na neutralização de citostáticos de uso comum. No entanto, parte das medidas de controlo passa essencialmente pelos procedimentos de limpeza das superfícies, do ambiente e não só, mas também dos equipamentos utilizados na preparação e administração (ex. bombas infusoras). Não se deve descurar dos procedimentos de limpeza. Deve-se tentar que a contaminação ambiental seja tão baixa quanto possível (As Low as Reasonably Achievable – ALARA).

A manipulação de citostáticos acarreta efeitos adversos na saúde dos profissionais. A preocupação máxima com a saúde dos profissionais está mais relacionada com a exposição crónica do que propriamente com a exposição aguda (ex. derrames acidentais). Alguns profissionais esporadicamente referem sintomas sugestivos de toxicidade aguda dos citostáticos, como alopécia e rash cutâneo. Sobre os efeitos crónicos, estes estão relacionado com o aumento do risco de determinados cancros e repercussões na reprodução e no desenvolvimento, mesmo assim, ainda se está longe de poder efetuar qualquer afirmação com segurança.

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Referências bibliográficas:

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Pedro Miguel Saraiva Rosa

Pedro Miguel Saraiva Rosa

Licenciado em Saúde Ambiental na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa. Desde 2008 trabalha no Serviço de Saúde Ocupacional do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) como Técnico de Saúde Ambiental e Segurança do Trabalho. É Mestre em Saúde Tropical pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Além de Técnico Superior de Segurança do Trabalho, colabora com a Comissão de Qualidade e Segurança do Doente do CHLC como auditor interno e auditor coordenador em auditorias internas da qualidade, é ainda interlocutor do Gabinete de Gestão do Risco e do Programa de Prevenção e Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos no mesmo Centro Hospitalar.
Pedro Miguel Saraiva Rosa

Pedro Miguel Saraiva Rosa

Licenciado em Saúde Ambiental na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa. Desde 2008 trabalha no Serviço de Saúde Ocupacional do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) como Técnico de Saúde Ambiental e Segurança do Trabalho. É Mestre em Saúde Tropical pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Além de Técnico Superior de Segurança do Trabalho, colabora com a Comissão de Qualidade e Segurança do Doente do CHLC como auditor interno e auditor coordenador em auditorias internas da qualidade, é ainda interlocutor do Gabinete de Gestão do Risco e do Programa de Prevenção e Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos no mesmo Centro Hospitalar.

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