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Palhaçadas e Saúde Ocupacional…

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Para além de os artistas circenses estarem sujeitos a inúmeros riscos laborais, classicamente, estes não costumam usufruir dos serviços de uma equipa de Saúde Ocupacional e a bibliografia sobre o tema é muito escassa e parcelar.

Os tratadores/ domadores de animais, por exemplo, além do risco óbvio de contraírem uma zoonose, estão também sujeitos a quedas e outros traumatismos (amputações, mordeduras, arranhões), por vezes fatais; bem como a reações alérgicas às diversas secreções orgânicas e/ ou lesões músculo-esqueléticas, secundárias ao controlo físico de animais de grande porte.

Os animais que apresentem evidência de infeção deverão ser isolados e os cuidados higiénicos redobrados. Ainda assim, alguns autores acreditam que o contato frequente e prolongado destes profissionais permita que o sistema imune esteja discretamente mais adaptado a estas agressões. Ainda assim, uma percentagem significativa das infeções bacterianas é adquirida através de mordeduras e arranhões.

Alguns mamíferos podem contrair raiva (através do contato das mucosas ou pele não íntegra) com o vírus.

Para além disso, é também possível o contágio humano por parasitas (ecto e endoparasitas); destacam-se aqui, por exemplo, o agente causador da escabiose (“sarna”); outro parasita razoavelmente frequente é a pulga.

Também se encontram casos de infeção humana por tuberculose e varíola bovina, através de elefantes infetados, por exemplo.

A prevenção das zoonoses passa pela educação/ (in)formação dos profissionais que lidam com os animais, com particular destaque para a sintomatologia animal e humana das doenças e respetivo risco de contágio. Para além disso, as próprias instalações devem permitir a separação e ventilação adequadas dos animais, bem como a limpeza fácil (tipo de material utilizado nas superfícies e tipo de agente de limpeza). Os dejetos devem ser removidos diariamente e antes de colocar a alimentação.

Os malabaristas/ equilibristas/ contorcionistas, por exemplo, poderão ter acidentes, por vezes, graves; além de lesões músculo-esqueléticas, secundárias ao esforço, queda de objetos, quedas suas (ao mesmo nível ou a níveis diferentes) e/ ou repetitibilidade de movimentos (considerando não só as atuações, mas sobretudo os treinos). Para além disso, se existirem números que envolvam instrumentos reais afiados/ cortantes, existirá aí outro fator de risco.

Os trapezistas, por sua vez, além do risco óbvio de queda de grande altura durante as atuações (uma vez que alguns dispensam o cabo de segurança), poderão também apresentar lesões músculo-esqueléticas secundárias ao esforço e movimentos repetitivos.

Os mágicos terão fatores de risco específicos em função do tipo de show que criam mas, globalmente, poderão estar sujeitos a agentes químicos, bem como risco de queda de objetos, queda sua (ao mesmo nível e a níveis diferentes), explosão e/ ou queimadura.

Os palhaços, por sua vez, também apresentam factores de risco específicos das atuações desenvolvidas mas, globalmente, poderão contatar com produtos químicos (por exemplo, a maquilhagem exuberante e oclusiva) e/ ou queda involuntária (devido, por exemplo, aos adereços), ao mesmo nível ou a níveis diferentes.

Os profissionais que fazem números com fogo poderão, além do risco óbvio de queimadura, ter problemas médicos associados ao contato (cutâneo e das mucosas orais) com alguns dos agentes químicos que utilizam frequentemente.

Os apresentadores/ anfitriões ou cantores poderão estar sujeitos a algum esforço vocal e ruído intenso (e mais prolongado que os outros profissionais).

Durante o espetáculo e os ensaios finais, são também necessários técnicos para coordenar o som e as luzes, sendo que aqui são frequentes a exposição ao ruído, posturas mantidas, radiações electromagnéticas e o esforço visual.

Os funcionários que colaboram na montagem/ desmontagem das infra-estruturas, frequentemente manuseiam cargas e apresentam risco de quedas de objetos e do próprio (ao mesmo nível e a níveis diferentes); podem também usar máquinas que além de possibilitarem alguns acidentes, produzem sempre ruído e vibrações, radiações e/ou contato com a eletricidade.

Para além disso, quase todos os artistas circenses (exceto os de alto nível), assumem diversos papéis, não só com atuações de áreas totalmente diferentes, como participando na própria montagem e manutenção das infra-estruturas globais, pelo que frequentemente existirá acumulação de diversos riscos.

Em comum a todos estes profissionais, poder-se-á considerar em alguns casos o stress associado à atuação perante o público ou a preocupações de rentabilidade económica, dado a generalidade destes funcionários não dispor de um salário regular ao longo do ano. Para além disso, o envelhecimento do artista, na maioria das áreas, compromete o desempenho profissional. Em algumas atividades é também necessária a aquisição/ manutenção de determinados requisitos estéticos, situação essa que, em função das caraterísticas do trabalhador e/ ou envelhecimento, poderão também gerar ansiedade. Para além disso, os artistas podem ter de trabalhar/ alojar-se de forma próxima com colegas desconhecidos, com personalidade/ cultura muito diferentes, afastados dos seus familiares e hábitos, o que também pode potenciar o stress.

Em função da atividade itinerante, estes passam parte significativa do seu tempo laboral a viajar em veículos motorizados, pelo que aí se tornam frequentes a postura sentada mantida, ruído (do veículo e restante trânsito), bem como vibrações.

Seria muito interessante proporcionar um serviço de Saúde Ocupacional adequado a estes profissionais, de forma a minimizar os acidentes de trabalho e doenças profissionais, elaborando também projetos de investigação na área, de forma a conhecer-se melhor a realidade nacional (apesar que o tema, mesmo internacionalmente, não está muito aprofundado).

Bibliografia
Palhaços e Saúde Ocupacional… apenas uma reflexão. Santos, M.; Almeida, A. Revista Segurança, 2013, setembro- outubro, nº 216.

Artigo elaborado em parceria com:

Armando Almeida: Docente no Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa;
Mestre em Enfermagem Avançada; Especialista em Enfermagem Comunitária.

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Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto.
Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo).
A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).
Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto. Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo). A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).

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