prescrever_exercicio_sst_saude_ocupacional_blog_safemed

Porquê prescrever exercício no âmbito do apoio curativo das equipas de Saúde Ocupacional?

INTRODUÇÃO

As patologias associados a um estilo de vida menos correto são cada vez mais prevalentes na nossa população; parte delas consegue associar-se, constituindo entidades de gravidade superior (como a Síndrome Metabólica). O local de trabalho permite que a equipa de Saúde Ocupacional/ Medicina Curativa exerça um papel importante na educação e promoção para a saúde dos trabalhadores e seus familiares, nomeadamente alertando para os riscos do sedentarismo e proporcionando sugestões concretas para o início ou intensificação da atividade física.

CONTEÚDO

  • Benefícios do exercício em patologias/condições específicas

A atividade física/ exercício diminuem a incidência/ prevalência e/ou gravidade de patologias tão relevantes como o Síndrome Metabólico, doença cardíaca isquémica, acidentes vasculares cerebrais, osteoporose/ risco de fratura/ quedas e até mesmo a síndrome depressiva e perturbações da ansiedade. O sedentarismo e as suas consequências são muito prevalentes nos países mais desenvolvidos mas, até nos restantes, por ocidentalização do estilo de vida, a incidência destas patologias está a aumentar de forma preocupante. O exercício constitui assim uma terapêutica segura, económica e efetiva, coadjuvante ou mesmo alternativa à medicação.

  • Síndrome metabólica

    Patologias como a obesidade, diabetes, hipertensão arterial e dislipidemia (alteração das gorduras) constituem entidades distintas, mas a sua ocorrência em simultâneo apresenta uma nocividade muito superior ao somatório de cada uma delas. Todos estes componentes são passíveis de controlo ou atenuação através de um estilo de vida mais saudável. Os parâmetros considerados entre as diversas definições de síndrome metabólica são sensivelmente os mesmos, mas a importância dada a cada um e o valor de cut- off variam razoavelmente. 

-Patologias  cardiovasculares/cardiocirculatórias

  • Enfarte Agudo do miocárdio e outras síndromes isquémicas/doenças coronárias

Em termos cronobiológicos (interação entre os ritmos biológicos e o ciclos temporais), dada a generalidade dos episódios de isquemia ocorrer durante a manhã, alguns autores preferem prescrever exercício para outras alturas do dia. Pensa-se que tal ocorre devido às concentrações de cortisol e catecolaminas, bem como das alterações na capacidade de agregação plaquetária e do tónus endotelial. Para além disso, todos os indivíduos (mesmo sem patologias) apresentam maior dificuldade em executar treinos durante a manhã, por questões motoras, sendo tal variação circadiana (ciclo de 24 horas), ou seja, a coordenação é máxima ao final da tarde.

  • Insuficiência Cardíaca

No passado recomendava-se que estes indivíduos se abstivessem de qualquer exercício; contudo, a partir de 1990, vários investigadores concluíram que tal melhorava a aptidão cardiovascular e a qualidade de vida; considerando-o seguro exceto para os pacientes de classe IV (na classificação da New York Heart Association). Para além disso, trata-se de uma medida muito custo-efetiva. Classicamente, a modalidade de exercício mais recomendada era aeróbica. Contudo, o Colégio Americano de Medicina Desportiva foi reconhecendo a importância do treino de resistência (com cargas). No passado ele era associado a risco de isquemia, hipertensão arterial e disritmias graves; mas hoje acredita-se que os efeitos adversos graves são raros nos pacientes estáveis, devido à baixa intensidade de treino; também se prevenindo a perda de massa muscular. Alguns autores mencionam que a associação dos dois tipos de exercício é sinérgica. Devido ao grande descondicionamento físico de quase todos os pacientes, a intensidade do programa inicial deve ser suave e aumentar progressivamente.

 

  •  Doenças cardíacas congénitas (presentes desde o nascimento)

Devido aos progressos tecnológicos e à melhoria das condições gerais de vida, cada vez mais indivíduos com doenças cardíacas congénitas atingem a idade adulta. Quanto maior for a capacidade de exercício, melhores serão a função cardiovascular, qualidade de vida e a autoestima. Contudo, para além das dificuldades impostas pela doença em si, por vezes, estes pacientes são muito protegidos pelos familiares, que tentam reduzir a atividade física.

Alguns autores consideram que as seguintes patologias não constituem qualquer contraindicação para a prática até de desporto (ou seja, exercício com competição): foramen oval ou qualquer outra comunicação interauricular, comunicações interventriculares ou auriculoventriculares discretas; estenoses (estreitamento valvular) pulmonar ou aórtica suaves.

  • Transplante cardíaco

Trata-se de um procedimento médico cada vez mais frequente e a sobrevida dos transplantados tem aumentado. Apesar de também aqui o exercício ser benéfico, o novo coração não é totalmente responsivo à estimulação simpática/ parassimpática, daí a elevada frequência cardíaca em repouso e a lenta adaptação ao exercício. Para além disso, a prescrição de corticoides e o descondicionamento muscular reduzem ainda mais a capacidade de exercício; recomenda-se aqui um esquema com atividades aeróbicas e de resistência.

  • Acidente Vascular Cerebral- AVC

Esta patologia pode implicar situações de plegia ou parésia (paralisação ou diminuição da força); a inatividade piora ainda mais a função cardiovascular e a capacidade muscular, pelo que o exercício é fundamental, existindo vantagens no acompanhamento por um fisioterapeuta; contudo, devido às limitações técnicas e/ou económicas, por vezes, este processo é demasiado curto ou até inexistente. Em alguns contextos existe um intercâmbio entre estes e os ginásios, de forma a existirem programas de continuidade, não só para manutenção dos benefícios já adquiridos e conquista de mais, como também para que os pacientes não se sintam desamparados, o que se refletirá na sua adesão, motivação e qualidade de vida.

           

  • Doença arterial periférica

Nestes pacientes também se verifica que o exercício progressivo e supervisionado atenua a intensidade e aumenta o limiar da claudicação (dor na “barriga da perna”, que surge após um número determinado de minutos a caminhar).

.

  • Artrites

A generalidade dos autores defende que a participação em exercícios de intensidade moderada a vigorosa é benéfica para as artrites; quer diretamente, quer pela diminuição da carga ponderal e melhoria muscular. Sugerem-se, por exemplo, sessões com 30 minutos, a 3METs, pelo menos três dias por semana; deve-se também incluir algum treino com resistência; segundo alguns investigadores, o Tai-chi também poderá estar adequado.

 

  • Osteopenia/ osteoporose (diminuição discreta ou acentuada da massa óssea, respetivamente) e risco de fraturas

Os exercícios mais adequados à atenuação/prevenção da osteopenia/ osteoporose são aqueles em que há manipulação de carga e impacto (como musculação, dança, aeróbica, step, ténis, basquetebol, voleibol…); contudo, em situações de osteoporose grave, tal pode aumentar o risco de fratura; nesses casos estão mais adequados exercícios suaves de musculação, caminhada, dança menos vigorosa, ciclismo estacionário e natação, por exemplo. A existência de uma fratura prévia duplica o risco de uma segunda fratura e geralmente esta ocorre nos doze meses seguintes.

  • Patologias oncológicas

A nível de prevenção oncológica, alguns estudos estimam que indivíduos que praticam pelo menos duas horas semanais de exercício desde a adolescência, têm 30% menor probabilidade de apresentar cancro de mama (eventualmente devido à menor produção de estrogénios, devido à menor quantidade de tecido adiposo, principal fonte dos mesmos a partir da menopausa). Nas pacientes com cancro da mama, as que têm peso a mais apresentam uma probabilidade de mortalidade 33% superior. Para além disso, alguns autores consideram que um plano de exercício adequado, iniciado logo no pós-operatório, atenua a dor, edema (inchaço) e a diminuição da mobilidade e força.

Encontram-se também outros artigos que defendem que, para qualquer situação oncológica geral, o exercício apresenta benefícios físicos e emocionais, uma vez que atenua parte dos sinais e sintomas da doença e da terapêutica, melhorando também a capacidade funcional, autoperceção de saúde e qualidade de vida geral. Dadas as caraterísticas específicas desta população tem aqui particular interesse testar a capacidade inicial de exercício, para ajustar a prescrição da intensidade. Contudo, por vezes, a adesão ao exercício é ainda menor, devido à astenia (cansaço), desmotivação, náusea e vómitos.

  • Asma

Alguns autores consideram que a natação, por exemplo, diminui a reatividade das vias respiratórias; sugerem que tal possa se justificar com a pressão hidrostática mais elevada no peito (que reduz o esforço expiratório) e vasoconstrição periférica (que aumenta o retorno venoso); para além disso, como atividade aeróbica, aumenta a capacidade cardiorrespiratória. O esquema inicial deverá incluir sessões de quinze minutos, três vezes por semana; mais tarde trinta minutos e, se não existirem crises, poder-se-á passar para treinos de uma hora.

  • Insuficiência renal

Também os insuficientes renais podem obter benefícios do exercício; quanto maior for a motivação da equipa hospitalar, maior a adesão. Por norma, esta patologia associa-se a elevada mortalidade e sedentarismo; o exercício melhora o risco cardiovascular (por diminuição dos marcadores inflamatórios), qualidade de vida, aptidão muscular, potencia a diálise e melhora os parâmetros emocionais. Contudo, ainda assim, os programas de exercício não são tão frequentes quanto, por exemplo, nas patologias cardíacas e só surgiram a partir da década de oitenta. Apesar das vantagens, a adesão é baixa, sobretudo quando as sessões são agendadas para os dias sem diálise; alguns defendem por isso que o programa tenha um componente domiciliar. Genericamente, acredita-se que o benefício é diretamente proporcional à intensidade e frequência do exercício.

No entanto, devido às alterações hidroeletrolíticas, o exercício também pode associar-se a hipotensão mais frequente e/ou intensa. Outros riscos mencionados na bibliografia são as lesões músculo-esqueléticas, como fraturas e ruturas musculares (potenciadas pelo hiperparatiroidismo e alterações ósseas associadas). Contudo, o exercício de resistência diminui o risco de queda e a osteoporose; para além disso, a inclusão de um período de aquecimento no início do treino e a evicção de atividade mais intensas e/ou de alto impacto, diminuem os riscos. Consoante os estudos, estão recomendados exercícios aeróbicos, de resistência ou ambos.

  • Patologias obstétricas

Também durante a gravidez é muito importante a prática de exercício físico, pois tal contribui para a diminuição da incidência/ gravidade de patologias materno-fetais. Contudo, muitas grávidas colocam no mesmo nível de importância que “não fumar” e “não beber” a necessidade de evitar qualquer atividade física.

Os benefícios do exercício tanto são diretos, como consequentes à diminuição dos riscos associados ao sedentarismo, ou seja: diminuição da perda de funcionalidade/ qualidade muscular, melhor aptidão cardiovascular, menor aumento de peso, menor probabilidade de ter diabetes gestacional ou alterações hipertensivas, bem como veias varicosas (varizes)/ edema, trombose venosa, dispneia, lombalgia (dor lombar), alterações do sono, pré-eclampsia, cesariana ou parto vaginal instrumentalizado. Aliás, alguns defendem mesmo que o exercício pode contribuir para a diminuição do risco de desenvolver futuramente diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial. Associa-se também a menor incidência/ prevalência de síndrome depressiva e ansiedade, aumentando a autoestima. No pós- parto, as medidas corporais serão recuperadas mais rápida e eficazmente.

Na generalidade das gravidezes, sobretudo no segundo trimestre, surge uma maior resistência à insulina, o que implica menor entrada de glicose (açúcar) no músculo, fazendo com que esta aumente a nível sérico (concentração sanguínea). Na diabetes gestacional há maior probabilidade de o parto ser instrumentalizado ou ocorrer por cesariana, devido à maior dimensão do recém-nascido. Durante a infância e até mesmo na idade adulta, há uma maior probabilidade desta descendência ter também excesso de peso e/ou diabetes.

Em 1994 o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia elaborou guidelines, defendendo a prática de exercício suave a moderado; na ausência de complicações obstétricas recomendavam 30 ou mais minutos diários, uma a sete vezes por semana. Para evitar uma hipoglicemia prolongada, as sessões não deveriam ultrapassar os quarenta e cinco minutos, apesar que tal também dependerá da preparação física anterior, tipo de atividade e fase da gravidez.

  • Síndrome depressiva e ansiedade

A generalidade dos autores defende que a prática de exercício atenua/ previne a depressão, para esquemas com pelo menos uma sessão semanal de trinta minutos, com a intensidade de 60 a 80% da frequência cardíaca máxima; quer via aeróbica, quer através do treino de resistência; individualmente ou em grupo. Aliás alguns acreditam que, não só coadjuvante com a medicação, o exercício pode (em alguns casos) constituir terapêutica única. A eficácia será maior, quanto mais a modalidade se adequar aos gostos do indivíduo.

Acredita-se que o efeito do exercício ocorra não só pela maior interação social, como também pelo aumento da noção de autoeficácia, além dos níveis superiores de endorfinas circulantes (substâncias que proporcionam a sensação de prazer/ relaxamento).

 

  • Fibromialgia

            Esta patologia cursa com dor crónica e difusa, frequentemente associada a astenia, insónia e alterações do humor. O diagnóstico faz-se com a existência de dor por três meses, em 12 pontos, à palpação. A etiologia e patogenia não são claramente conhecidas. A generalidade dos autores considera que o exercício (sobretudo aeróbico) é a opção terapêutica não farmacológica mais importante, uma vez que melhora a resistência, diminui o número de pontos dolorosos e respetiva intensidade, aumentando a qualidade de vida. A combinação de exercício e fármacos é considerada sinérgica. Estes pacientes preferem geralmente a caminhada, mas também existem estudos com atividades aquáticas e treino com resistência, bem como exercícios posturais/ equilíbrio. Alguns defendem o exercício em grupo, devido à interação e apoio.

-Síndroma da Fadiga Crónica

            Esta patologia carateriza-se pela existência de astenia, recorrente e debilitante, por pelo menos seis meses, causando intensas incapacidades física/mental, não explicada por outra patologia e associada a dor músculo-esquelética, cefaleias e perturbação do sono e/ou concentração. Os principais tratamentos referidos na bibliografia são o exercício e a terapia cognitiva comportamental. O prognóstico não é muito favorável, apesar de não se associar a mortalidade. O exercício físico progressivamente intensificado melhora substancialmente a sintomatologia, apesar que, inicialmente, pela má forma física, poderá ocorrer um agravamento dos sintomas. De realçar também que o repouso prolongado é prejudicial; perpetua a fadiga e diminui ainda mais a tolerância à atividade física.

 

  • Particularidades dos trabalhadores mais idosos

A incidência da demência aumenta com a idade e diminui bastante a autonomia e a qualidade de vida do próprio e cuidadores; alguns autores acreditam que o exercício iniciado em fases anteriores consegue atenuar esta progressão. A mobilidade condicionada diminui a independência e a qualidade de vida, aumentando o risco de institucionalização, morbilidade e mortalidade. O equilíbrio postural nos idosos está diminuído não só devido às alterações sensoriais, mas também cognitivas e motoras; alguns autores acreditam também que o exercício atenua a perda de equilíbrio.

Se passar de um estilo de vida sedentário para ativo é difícil em qualquer idade para a generalidade dos indivíduos, nos menos jovens poderão existir ainda mais barreiras, como é o caso das morbilidades físicas e emocionais. No geral, os mais idosos preferem atividades com intensidade suave a moderada (como caminhar); constituem ainda preditores da adesão a noção de autoeficácia e o apoio social. Mesmo nos casos em que o exercício implique alguns riscos, deve ficar claro que os riscos do sedentarismo, apesar de mais discretos a curto e médio prazo, são muito mais graves.

A maioria das normas recomenda que estes indivíduos pratiquem trinta minutos diários de exercício, preferencialmente todos os dias, ou até uma hora diária dos três tipos de exercício. Cada grupo muscular deve ser exercitado duas a três vezes por semana, mas não mais, de forma a permitir a recuperação muscular; contudo, mesmo um só treino semanal já apresenta benefícios.

.

CONCLUSÕES

O exercício é uma ferramenta subutilizada na manutenção de um estilo de vida saudável dos profissionais de saúde e, por isso, raramente prescrita aos utentes ou trabalhadores.

Um funcionário mais saudável está mais motivado para colaborar com os objetivos da empresa e torna-se mais produtivo, não só pela maior capacidade direta de trabalho, mas também pelo menor número/ gravidade de acidentes de trabalho e doenças profissionais, bem como pelo menor número e duração de ausências por certificados de incapacidade e procura de serviços médicos.

.

BIBLIOGRAFIA

  • Santos M, Almeida A. Porquê prescrever exercício em contexto laboral? Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line. 2016, volume 1, página 1- 10.

           

1 (20%) 1 vote
Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto.
Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo).
A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).
Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto. Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo). A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subscribe!

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>