Prevenção das lombalgias no sector dos Cuidados de Saúde

Prevenção das lombalgias no sector dos Cuidados de Saúde

Ainda que seja difícil identificar o sector profissional que apresenta o maior risco de sofrer de dores nas costas, é quase certo que o sector dos Cuidados de Saúde se encontra na dianteira. Dadas as consequências sociais e financeiras provocadas pelas lesões dorsais, é essencial a sua prevenção. Compreendendo bem esta situação, o legislador europeu impôs a sua aplicação através de uma Directiva. A Comissão Europeia decidiu agir mais activamente organizando uma campanha europeia de comunicação e inspecção orientada para os sectores dos Transportes e dos Cuidados de Saúde.

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Alguns números…

Inúmeros estudos estimam que 60 a 90% das pessoas sofrerão de lombalgias num ou noutro momento da sua vida. As movimentações manuais de cargas comportam inúmeros riscos, nomeadamente ao nível dorso-lombar. As lesões musculo-esqueléticas ocupam efectivamente um lugar demasiado importante na Europa no que diz respeito a queixas associadas ao trabalho. Os resultados do Terceiro Inquérito Europeu sobre as condições de trabalho, realizado em 2000, permitem afirmar que 33% dos trabalhadores europeus (Europa dos 15) sofre de problemas dorsais. O sector dos Cuidados de Saúde é um dos mais visados: o inquérito europeu revela que 32,5% dos trabalhadores activos neste sector apresentam afecções na coluna vertebral.

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Obrigação legal

O cumprimento das directivas relativas à segurança e à saúde no trabalho permite evitar uma grande parte das queixas relativas às lesões musculo-esqueléticas associadas ao trabalho. Entre estas, encontra-se a Directiva Europeia 90/269/CEE, do Conselho, (de 29 de Maio de 1990, JO de 21 de Junho de 1990) que estabelece as prescrições mínimas de segurança e de saúde relativas à movimentação manual das cargas. Esta directiva aplica-se às operações que comportam riscos, nomeadamente dorso-lombares, tais como levantar, puxar, empurrar e transportar uma carga. É evidente que estas manipulações podem igualmente criar constrangimentos ao nível dos membros inferiores e superiores, mas este aspecto não é tratado neste documento. Esta Directiva foi transposta por Portugal através do Decreto-Lei n.º 330/93, de 25-09.

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Factores de risco
Uma movimentação pode comportar um risco de lesão dorso-lombar, quando:

a carga é:
– demasiado pesada
– demasiado grande
– difícil de pegar
– situada a uma grande distância do corpo
– agarrada mediante uma flexão ou torção do tronco

o esforço requerido:
– é demasiado grande
– exige uma torção do corpo
– desequilibra a carga
– exige uma posição instável

o ambiente de trabalho é inadequado:
– pela natureza do pavimento irregular ou escorregadio
– pelo espaço livre insuficiente
– pelas condições climáticas desfavoráveis

a operação comporta outras exigências como:
– esforços prolongados com repouso insuficiente
– distâncias de transporte demasiado longas
– uma cadência demasiado elevada

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De acordo com a Directiva 90/269/CEE, a entidade patronal deve evitar a movimentação manual das cargas pelos trabalhadores (art. 4º). Sempre que é impossível evitar a movimentação, convém: – avaliar o trabalho (art. 4º e 5º); – reduzir os riscos (art. 4º); – adaptar o posto de trabalho (art. 4º); – informar, formar e consultar o trabalhador (art. 6º e 7º); – organizar um exame médico regular (art. 4º)

O que pode provocar lombalgias?

Muitas vezes, é difícil definir a origem das lombalgias uma vez que as suas causas são geralmente múltiplas. É por esta razão que falamos de “factores de risco”. Estes factores de risco distribuem-se em três categorias:

  • Factores individuais: idade, sexo, corpulência, tabagismo, sedentarismo,…
  • Factores de penalização física no trabalho: transporte e movimentação manual de cargas; movimentos frequentes de inclinação e de torção (nomeadamen te do tronco); posições estáticas e/ou prolongadas; vibrações do corpo inteiro.
  • Factores psicossociais e organizacionais: constrangimentos de tempo, organização do trabalho, falta de autonomia, de entreajuda, de cooperação, de reconhecimento e insatisfação no trabalho

Porque é que estes factores de riscos estão na origem das afecções na coluna vertebral? Qual é o seu papel no sector dos Cuidados de Saúde?

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As causas das lombalgias

Eis agora alguns exemplos, retirados da prática quotidiana do profissional de saúde, que constituem factores de riscos para a coluna vertebral.

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1. A repetição ou manutenção prolongada de determinadas posições e movimentações

A posição em pé, vertical, é a posição de referência: É nesta posição que as pressões e as tensões ao nível do disco e dos ligamentos são mais fracas e mais equilibradas. Os gestos e as posições ilustradas abaixo são potencialmente perigosos para a coluna vertebral – e, em particular, para os últimos discos lombares – quando frequentemente repetidos ou mantidos durante muito tempo.

a. Inclinar-se para a frente (coluna arredondada)
A repetição excessiva destes movimentos pode provocar lesões nos ligamentos e nos discos. Estas devem-se ao aparecimento dos seguintes fenómenos:
– inversão da curvatura da coluna vertebral (coluna arredondada para trás); – aperto anterior do disco;
– estiramento dos ligamentos posteriores e da parte posterior do disco;
– aumento da pressão no disco (efeito de alavanca).

b. Virar-se para o lado inclinando-se para a frente
Esta posição é de longe a mais nociva para a coluna vertebral. Ela provoca as seguintes manifestações ao nível da coluna e dos discos em particular:
– inversão da curvatura da coluna vertebral (coluna arredondada para trás); – compressão da parte anterior e lateral do disco;
– estiramento da parte posterior e lateral do disco (a mais frágil);
– corte das fibras do anel;
– aumento da pressão no disco (efeito de alavanca).

c. Segurar a carga esticando-se fortemente para trás Esta posição tem os seguintes efeitos:
– aumento do arqueamento da coluna;
– compressão da parte posterior do disco e das articulações posteriores;
– aumento da pressão no disco (efeito de alavanca).

d. Permanecer muito tempo sentado numa cadeira
A manutenção da posição sentada constitui um obstáculo à nutrição do disco.

e. Permanecer muito tempo de joelhos ou agachado
Este gesto não só é perigoso para as articulações, mas também cansativo para a musculatura e o coração. Embora a flexão dos joelhos seja necessária para pegar numa carga no solo, esta flexão não deve ultrapassar um ângulo de 90°

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2. Os riscos associados à movimentação de cargas

a. As características da carga O peso da carga é o factor mais frequentemente sentido como um constrangimento importante. O peso máximo, e quando levantado numa boa posição e pavimento nivelado, é de 25kg para um homem e de 15kg para uma mulher.

A tarefa é ainda complicada por outras características:

riscos associados movimentação de cargas
Riscos associados à movimentação de cargas

b. A distância para pegar numa carga
O transporte de uma carga ou de um paciente aumenta certamente a pressão sofrida pelo disco intervertebral. A tensão sobre a parte inferior da coluna vertebral depende da distância à qual a carga é agarrada. É o princípio do “braço de alavanca”: quanto maior a distância a que se agarra a carga ou quanto mais inclinado para a frente for o tronco, maior é a elevação do braço da alavanca e a pressão a exercer.

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3. Falta de actividade física
Uma vez que a nutrição dos discos intervertebrais se encontra associada às mudanças de posição (efeito esponja), o movimento desempenha um papel essencial na manutenção de uma coluna vertebral saudável. Além disso, uma boa condição física (musculatura tónica e flexível) facilita a adopção de movimentos que protegem a coluna vertebral.

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4. O stress
A relação entre o stress e a afecção dorsal é frequentemente descrita pelos trabalhadores. “Tenho dores nas costas porque há algumas semanas que me sinto tenso e enervado”. Os estudos científicos mencionam igualmente que o risco de sofrer de dores crónicas nas costas aumenta fortemente quando se é confrontado regularmente com situações de stress, nomeadamente quando se está insatisfeito com o trabalho. As repercussões do stress sobre o corpo e a mente são inúmeras. Entre elas, encontram-se nomeadamente as tensões musculares. Este estado de contracção pode estar presente ao nível dos músculos das costas e assim aumentar a pressão sobre os discos intervertebrais, o que pode ter um efeito negativo sobre os mesmos.

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2. Soluções preventivas no sector dos Cuidados de Saúde

Como em qualquer plano de prevenção, é importante trabalhar de modo sistemático e estruturar a abordagem.

Implementação de uma política de prevenção
A implementação de uma política de prevenção das lombalgias pode ser dividida em três etapas principais: analisar os riscos, procurar as soluções e aplicar as medidas de prevenção que foram estabelecidas.

prevenção lombalgias
Política de prevenção de lombalgias

Durante a sua evolução, é certamente útil a cada empresa fazer regularmente uma avaliação das acções de prevenção de modo a que sejam coerentes com a política de prevenção implementada.

Escolha das medidas de prevenção

Identificados os riscos, é necessário agir. Como? Eliminando-os ou reduzindo-os. A prioridade é sempre dada às acções que permitem eliminar os riscos. Eis um quadro síntese das medidas de prevenção possíveis:

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1. Eliminação do risco
Acção de prevenção por excelência, a eliminação do risco consiste em evitar a exposição directa dos trabalhadores ao risco e, portanto, evitar movimentações manuais. Implica a mecanização ou a automatização total da tarefa de movimentação. A movimentação de pessoas em ambientes hospitalares dificulta esta implementação. Para além disso, é imperativo ter em consideração a dignidade dos pacientes.

Inúmeras transferências de pacientes (cama inclinável, cama-maca, cama-banheira, …) constituem factores de risco para a coluna vertebral, nomeadamente devido ao peso dos pacientes, das posições adoptadas, etc. Estas movimentações manuais de risco podem ser evitadas utilizando um elevador ou calhas de transferência.

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2. Redução do risco

a. Medidas técnicas (ajudas mecânicas)
As ajudas técnicas tais como camas reguláveis em altura, pranchas de transferência, carrinhos, aliviam a operação de movimentação. Elas permitem reduzir – e inclusive eliminar – os riscos associados à movimentação.

(1) Adaptar em altura
– Camas e banheiras reguláveis em altura
Estes aparelhos ajudam a evitar posições de risco para a coluna
vertebral dos profissionais, nomeadamente as flexões anteriores do
tronco. Eles facilitam igualmente as movimentações aquando da
transferência dos pacientes.

– Adaptação em altura do plano de trabalho em função da actividade Para evitar as posições de risco para a coluna vertebral, tais como a flexão anterior e a flexão/rotação do tronco, é necessário adaptar a altura do plano de trabalho ao tipo de trabalho efectuado.

(2) Facilitar as movimentações dos pacientes
A maior parte das dores dorsais no sector dos cuidados de saúde ocorre quando o profissional de saúde sustem ou levanta um paciente para o transferir de um lugar para o outro (cama-cama, cama-cadeira,…). Inúmeras ajudas técnicas permitem facilitar a deslocação e, portanto, diminuir os constrangimentos ao nível da coluna vertebral. Eis alguns exemplos:

– Estruturas de transferência: estas estruturas em tecido sólido, com coeficiente de fricção baixo, permitem a elevação, a transladação ou o simples reposicionamento do paciente acamado fazendo-o deslizar em vez de o levantar.
– Pranchas de transferência: estas pranchas, envoltas em tecido ou fabricadas em material deslizante, permitem as transferências do paciente de uma cama para outra, de uma cama para uma cadeira de braços ou para uma cadeira de rodas através de deslizamento e não de elevação.
– Carrinhos de transferência: tais ajudas técnicas ajudam no levantamento e ou na transferência do paciente facilitando a sua autonomia ao máximo.
– Disco giratório: a transferência de uma cama para uma cadeira de rodas exige frequentemente muito esforço por parte do paciente. Este tipo de instrumento facilita a deslocação da pessoa respeitando as suas capacidades físicas e reduzindo o esforço para a suportar. Existem discos do mesmo tipo para facilitar a entrada ou a saída de um veículo

(3) Facilitar a acessibilidade
– Trepadores de escada para cadeira de rodas: fora do meio hospitalar, a acessibilidade aos andares frequentemente não é possível senão pelas escada e isto porque os elevadores são demasiado estreitos. Os trepadores de escada permitem às cadeiras de rodas aceder às escadas.
– Cadeiras de braços reguláveis: o acesso à cadeira de braços é muitas vezes obstruído pela presença de apoios de braços que obrigam o pessoal auxiliar a efectuar movimentações manuais inadaptadas. Uma cadeira de braços equipada com apoios que podem abaixar facilita nomeadamente a utilização da prancha de transferência.

(4) Melhoria do armazenamento de cargas
Uma distribuição equilibrada das cargas nas zonas de armazenagem evita excessos de carga da coluna e facilita o acesso às áreas de arrumação.

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b. Medidas organizacionais
Programação do trabalho, alternância das actividades e melhor distribuição das tarefas constituem medidas de organização do trabalho que permitem reduzir os riscos.

A planificação do trabalho, na perspectiva da “ergonomia”, compreende, entre outros, a adaptação do mobiliário, do material e da organização do trabalho. Evidentemente, estas adaptações nem sempre são fáceis de realizar. No apoio domiciliário, por exemplo, as condições de trabalho dos profissionais dependem largamente do que já existe na habitação e da vontade e/ou das capacidades financeiras dos beneficiários. Por esta razão é importante não negligenciar o seu corpo e aprender os gestos e posições que respeitam a coluna vertebral.

A entidade patronal pode, igualmente, permitir aos trabalhadores praticar exercício físico no local de trabalho ou encorajá-los a fazer desporto fora do meio profissional (participando nas despesas de actividades desportivas, etc.). Do mesmo modo, pode estimular os trabalhadores a utilizar a bicicleta ou a optar por caminhar até ao local de trabalho.

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Fonte (ACT): https://bit.ly/37eUmlx

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