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Principais riscos laborais dos profissionais de saúde

INTRODUÇÃO E OBJETIVOS

Os profissionais de saúde (PS) executam inúmeras tarefas sujeitas a riscos muito variados; contudo, se alguns são facilmente percetíveis para a maioria, outros são ignorados.

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CONTEÚDO

Os PSs estão expostos a fatores de risco de naturezas diferentes; dar-se-á aqui particular destaque aos agentes químicos, físicos, biológicos, ergonómicos e psicossocio/ organizacionais.

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AGENTES QUÍMICOS

  •  Citostáticos

Os Citostáticos são usados nos tratamentos oncológicos, no sentido de serem destruídas as células cancerígenas; contudo, não têm uma precisão absoluta, pelo que também são alteradas/ destruídas células normais- são por isso carcinogénicos. O uso dos equipamentos de proteção individual (EPIs) pode ficar comprometido não só pela recusa do próprio profissional, como pela sua inexistência (sobretudo em instituições/ países com menos recursos económicos)- até porque alguns destes exemplares (como fatos completos com sistema de apoio respiratório incluído) são extremamente dispendiosos. A não perceção da gravidade do risco, o vazio semiológico (conjunto de sinais e sintomas) no momento do contato e o diagnóstico das consequências apenas muitos anos depois, podem também contribuir para a não aderência ao uso dos EPI. Existem várias classes de profissionais que contactam com os citostáticos, mas considera-se que o risco é superior nos farmacêuticos hospitalares e, sobretudo, nos enfermeiros. A preparação do produto deve ocorrer sempre numa câmara de fluxo laminar ou então, alternativamente, devem ser usados os tais fatos com proteção respiratória. Por vezes, a preparação final ou, pelo menos, a administração é realizada na enfermaria, onde também passam a existir outros pacientes expostos, outros PSs ou até as visitas. Ainda assim, na fase de preparação o risco é maior porque as substâncias estão numa concentração superior e o contacto é mais direto. Todos os EPI e outros objetos contaminados deverão ser metidos em recipientes adequados e rapidamente fechados. É também fundamental que todos lavem muito bem as mãos antes e depois de manusearem citostáticos, bem como antes de comerem, beberem ou fumarem.

As trabalhadoras grávidas, a amamentar ou simplesmente a tentar engravidar não devem realizar qualquer tarefas associada a citostáticos, dado o risco de teratogenicidade e/ou aborto. Estas funcionárias deverão pedir uma consulta com a Medicina do Trabalho (que será classificada de ocasional, a pedido do trabalhador); informando o médico da sua condição, este emitirá uma nova ficha de aptidão na qual a chefia passa a conhecer esse condicionamento da trabalhadora, sem quaisquer outras informações, de forma a respeitar o sigilo médico.

Os produtos excretados pelos pacientes (como urina, fezes e suor) podem contribuir para o risco, sobretudo nas primeiras 48 horas, apesar de os princípios ativos estarem obviamente mais diluídos; em iguais circunstâncias encontram-se os WCs utilizados pelos pacientes e até móveis, camas e lençóis que tenham estado em contacto com estes. A lavagem da roupa deve ser feita em separado e quer estes profissionais, quer os auxiliares de enfermagem, devem usar os EPI adequados durante o seu manuseamento.

As luvas devem ser adequadas, grossas, compridas e sem pó interior; nas atividades de maior risco aconselha-se inclusive o uso de dois pares, sendo que o par interno deverá ficar por debaixo do manguito e o externo por cima; elas deverão ser trocadas se ocorrer qualquer derrame ou, pelo menos, de 30 em 30 minutos; lavar as mãos antes e depois da colocação das luvas é necessário e, obviamente, devem-se procurar defeitos físicos no momento da colocação. Os manguitos devem ser constituídos por material adequado, ser compridos e ter elástico nas pontas; não está aconselhada e reutilização deste material e antes da colocação também devem ser procurados defeitos físicos. Se forem de pano a contaminação pode ser superior, pela maior absorção. São geralmente ainda necessários óculos de protecção; outros recomendam viseiras, dado estas terem uma área de cobertura mais alargada.

  • Outros agentes químicos

Alguns PSs (sobretudo os que trabalham em laboratório) podem contatar com ácidos, aldeídos e outros agentes químicos nocivos. Existem também artigos onde se descrevem os efeitos à exposição aos produtos anestésicos nos blocos operatórios, quer pelos sistemas de administração dos fármacos, quer indiretamente, pela expiração do paciente; daí que, uma boa ventilação seja capaz de diminuir o risco.

Os dentistas e respetivos técnicos e assistentes utilizavam com alguma frequência com produtos como prata, cobre, estanho e mercúrio (sendo este último claramente nefro e neurotóxico, atingindo também o sistema reprodutor), sobretudo até a década de 80. Alguns estudos concluíram que nestes profissionais eram mais prevalentes as alterações de memória e concentração, fadiga e perturbações do sono (com particular destaque para as primeiras). Também neste setor se destacam os anestésicos como, por exemplo, o óxido nitroso.

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FATORES PSICO-SOCIO-ORGANIZACIONAIS

  • Stress

As profissões associadas à saúde estão associadas a stress laboral. Alguns estudos quantificaram que, por exemplo, na enfermagem, cerca de ¼ dos indivíduos apresenta stress, depressão e/ou ansiedade. Considera-se que a etiologia residirá (sobretudo nesta classe específica) na elevada carga de trabalho, falta de controlo/ autonomia, (intra e inter classes), falta de apoio da instituição, relações laborais conflituosas / bullying, má adaptação à mudança, pacientes/ familiares abusivos ou violentos, turnos prolongados, responsabilidade do cargo, falta de equipamentos adequados ou até privatização da saúde e as mudanças que tal implica. Para além disso, muito frequentemente os PS têm de se confrontar com o sofrimento dos pacientes/ famílias e até com a morte. Os PSs alegam também existirem genericamente problemas nas relações interpessoais devido, por exemplo, ao autoritarismo da maioria dos indivíduos com postos de chefia. Alguns estudos quantificam que o stress laboral pode justificar cerca de 60% do absentismo destes profissionais.

  • Bullying

O bullying carateriza-se por existir um ou mais elementos da equipa que, de forma sistemática, atua num ou mais colegas, para os humilhar, denegrir e perturbar, repetitivamente. Alguns autores quantificam que cerca de 85% dos enfermeiros sejam vítimas ou, pelo menos, assistam a atos de bullying; nesta classe profissional mais frequentemente o abusador e a vítima são ambos enfermeiros. O bullying também pode atingir outros funcionários não diretamente envolvidos, uma vez que estes podem se sentir incomodados ao imaginar o que a vítima sente e/ou porque colocam a hipótese de tal poder vir a acontecer com eles também, no futuro. Trata-se de um comportamento razoavelmente frequente entre os PSs, estando por isso tão enraizado, a ponto de alguns até consideram como culturalmente aceite. Aliás, não é raro passar de vítima a abusador, depois e com colegas mais novos.

Existem vários sub-tipos de bullying laboral: humilhação das capacidades profissionais e/ou motivação e iniciativas, ofensas e insultos pessoais, isolamento social e/ou profissional, retenção de informação e excesso de trabalho (pela carga e/ou impossibilidade de cumprir o prazo imposto). No entanto, ele pode ser constituído por atitudes mais subtis que, à primeira análise não são consideradas como claramente hostis (por exemplo, espalhar boatos pessoais e/ou profissionais).

  • Violência

Uma parte dos PSs não se sente em segurança ao desempenhar as suas tarefas, dada a violência a que podem estar sujeitos, sobretudo quando estão envolvidos pacientes e/ou familiares sob o efeito de substâncias psicoativas e/ou stressados.

  • Burnout

Um profissional em fase de burnout poderá ser considerado pelos colegas e/ou pacientes como distante, frio e/ou incompetente. Este estado pode ser caraterizado pela exaustão emocional/ física, despersonalização e/ou sentimentos de incompetência e infelicidade. Poderá ser atingido após a evolução/ intensificação do stress laboral e tem apenas aspetos negativos; enquanto que o stress poderá criar oportunidades de adaptação/ progressão e, por isso, conter aspetos positivos também. Trata-se de uma situação razoavelmente frequente nos PSs, sobretudo nos enfermeiros (alguns autores quantificam-no, nesta classe, como atingindo ¼ dos indivíduos).

  • Alterações cronobiológicas: trabalho por turnos, horários prolongados e trabalhadores mais idosos

Na primeira noite de trabalho geralmente não se verifica diminuição considerável do desempenho mas, nas noites seguintes, este diminui consideravelmente; nomeadamente a nível de atraso de raciocínio, tempos de reação maiores, mais erros, pior memória, menor vigilância, menor motivação e maior laxidez. Após 17 a 19 horas acordado, o desempenho é equivalente a uma alcoolémica de 5%; se se atingirem as 20- 25 horas, tal valor passa para 10%, sobretudo para postos com tarefas complexas. O maior risco de acidentes laborais situa-se durante a noite e/ou madrugada, mas o risco é decrescente do turno da noite para o da tarde e manhã. Na segunda noite o risco é 6% mais elevado e na 3ª e 4ªs noites 17 e 36%, respectivamente; acredita-se que a partir da quinta noite já não exista um acréscimo de risco significativo; nos turnos diurnos essa evolução é de 2, 7 e 17%; o risco é também superior nos turnos de 12 versus oito horas. A destacar também que, a qualquer hora do dia, as pausas diminuem o risco de acidentes de trabalho. As sestas durante os turnos aliviam a fadiga e a sonolência; devendo tal ser incentivado pelos gestores durante os turnos noturnos; uma sesta em local barulhento proporciona um pior desempenho do que quando esta ocorre em contexto calmo; o efeito parece ser proporcional à duração da mesma. A privação de sono não só aumenta o risco do trabalhador cometer erros, como diminui a probabilidade de os detetar nos colegas. Contudo, as sestas também podem criar desorientações que só revertem desde alguns minutos até cerca de quatro horas depois, o que também aumenta o risco de acidentes e erros. Contudo, curiosamente, alguns trabalhadores preferem os turnos prolongados porque fica assim mais fácil coordenar segundos empregos e/ou ter também mais tempo livre seguido.

Alguns autores defendem que a existência de turnos noturnos fixos em vez de rotativos, poderá minimizar o impacto na saúde e bem-estar. Verificou-se, por exemplo, que o tempo de sono diurno era superior nos primeiros; contudo, a adaptação total é muito rara (porventura na ordem dos 3%) e manifestada pelo ajustamento da secreção de melatonina e temperatura interna. Existe uma grande variabilidade individual na tolerância ao trabalho por turnos.

Por exemplo, acredita-se que fará uma grande diferença o turno das 18- 6 horas para outro que funcione das 19- 7 horas (devido à exposição à luz matinal). Acredita-se que os indivíduos, na generalidade, têm maior capacidade laboral entre as 8 e as 18 horas.

No trabalho por turnos é mais frequente a patologia gastrointestinal, nomeadamente as úlceras péptica e duodenal, bem como alterações do sono (que se podem tornar crónicas), doença cardiovascular (incluindo dislipidemia, ou seja, alterações no colesterol e triglicerídeos) e diabetes. Este potencia também a probabilidade de existirem atritos familiares devido ao isolamento e à menor capacidade de ter um papel adequado neste contexto; são assim também mais frequentes a baixa autoestima, ansiedade e irritabilidade; bem como a síndroma depressiva. Alguns estudos defendem que a mortalidade dos trabalhadores por turnos noturnos (presentemente ou no passado apenas) é superior à dos trabalhadores que só fazem ou fizeram turnos diurnos e regulares. A Agência Internacional de Pesquisa para o Cancro (IARC) classificou o trabalho por turnos como “provavelmente carcinogénico”, desde 2007, em função do desequilíbrio circadiano que isso implica, com particular destaque para a supressão de melatonina, secundária à exposição à luz. Os ciclos celulares de apoptose e reparo de DNA, ou seja, a origem, evolução, tratamento e prognóstico oncológicos também variam com os ritmos circadianos.

A maioria dos estudos associa ao trabalho por turnos maior frequência de tabagismo, sendo aqui também mais difícil a cessação porque, por exemplo, as alterações do sono tornam-se mais comuns e intensas com a abstinência, tal como a fadiga e a desconcentração. Para além disso, os efeitos da nicotina podem “adaptar” melhor o trabalhador a este tipo de horário. Há também maior prevalência no consumo de álcool, hipnóticos/ ansiolíticos e café.

Um sono adequado associa-se a melhor qualidade de vida, memória e humor, bem como sistema imune mais fortalecido, melhor nível de alerta e de tempo de reação.

  • Alterações cronobiológicas aplicadas à nutrição, no contexto da saúde ocupacional

Ao trabalho noturno estão associadas maiores prevalências de indigestão, menor interesse pela comida e alteração na escolha/ padrão alimentar. Tal poderá ser atenuado parcialmente preferindo as refeições quentes às frias, apesar de ser mais frequente o consumo das últimas; até porque durante a noite existem menos serviços de restauração abertos (na instituição de saúde e fora dela). Daí que, frequentemente, se associe o trabalho por turnos ao aumento do risco cardiovascular, nomeadamente 1,4 vezes superior, mesmo após ajustamento com o estilo de vida, tensão arterial e perfil lipídico. A síndroma metabólica pode ser definida como sendo a conjugação (total ou parcial) de vários fatores de risco cardiovasculares, nomeadamente a dislipidemia (hipertrigliceridemia e/ou aumento do colesterol total e/ou do colesterol LDL e/ou diminuição do colesterol HDL), hipertensão arterial, tolerância diminuída à glicose/ hiperinsulinemia/ Diabetes Mellitus e obesidade abdominal. Alguns autores defendem que o trabalho com turnos noturnos (e/ou alternância diurno/ noturno) aumenta a incidência e gravidade desta síndrome.

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AGENTES BIOLÓGICOS

  • Acidentes com agulhas ou outros instrumentos pontiagudos

As principais doenças que podem ser transmitidas neste contexto são as hepatites (B e C) e o HIV. Acredita-se que a maioria destes acidentes de trabalho não é oficializada; as razões justificativas mais frequentes são considerar-se que o risco infecioso é muito baixo; vergonha por achar que a culpa é sua; desconhecimento relativo às burocracias da declaração e falta de tempo. Outros ainda, por sua vez, receiam os resultados dos testes que teriam que fazer, pelo que se defendem com a atitude de negação ou então acham que os procedimentos protocolados não têm utilidade, pelo que decidem não os iniciar. A declaração ou não resulta então do balanço entre a perceção do perigo, benefícios e desvantagens inerentes à oficialização do acidente. Existem serviços onde este tipo de acidentes é mais frequente, como as urgências, cuidados intensivos, cirurgias, ginecologia/ obstetrícia, pediatria e oncologia/ hospital de dia. As tarefas mais frequentemente associadas a lesões com agulhas são a abertura e o recapsulamento da agulha, preparação da medicação e a abertura das ampolas, para os enfermeiros, bem como colheitas de sangue venoso; os baldes para depósito de agulhas utilizadas diminuem os acidentes em 80%. Por sua vez, na classe médica, as picadas ocorrem mais frequentemente nas suturas e cirurgias. No caso dos dentistas e respetivos assistentes, estes acidentes são mais frequentes no ato de anestesiar localmente, recapsular agulhas e desinfeção/ esterilização dos instrumentos.

Relativamente ao uso de EPI, considera-se que o sexo feminino é mais cumpridor. Globalmente, a maioria usa regularmente, pelo menos, luvas. As principais justificações assinaladas para a menor aderência ao uso dos EPI foram a falta de conhecimentos, interferência com a capacidade de executar algumas tarefas, receio de ofender os pacientes e desconforto.

Pode também ocorrer contágio infecioso através de outros tipos de contato com fluidos corporais, como a projeção destes junto à cabeceira do paciente e/ou durante procedimentos cirúrgicos ou partos. Os microrganismos responsáveis pelas hepatites B e C, bem como HIV, estão mais concentrados no sangue e nos fluidos corporais hemorrágicos; mesmo sem a presença de sangue, são também destacados para a hepatite B e HIV os líquidos amniótico, cerebrospinal, pericárdio, peritoneal, pleural e sinovial. O contato com órgãos infetados em cirurgia ou pos-mortem, como médico, enfermeiro ou até técnico de laboratório, também detém risco. A transmissão ocupacional de hepatite B ocorre sobretudo por exposição percutânea, mucosa ou através de contato com pele não íntegra. Este vírus é muito resistente: considera-se que ele consegue sobreviver em superfícies inanimadas por uma semana ou mais (como móveis, monitores…). O vírus é eliminado ou atenuado com germicidas ou com o aquecimento a 98ºC, por cerca de dois minutos. A infeção crónica ocorre apenas em 2 a 10% dos infetados adultos, situação essa que pode levar a insuficiência e/ou neoplasia hepáticas. Por sua vez, a hepatite C é a causa mais frequente de cirrose e de transplante hepático. A semiologia pode surgir apenas 10 a 20 anos depois. A transmissão ocorre praticamente por contato com sangue, via percutânea; menos frequentemente através do contato com mucosas ou pele não íntegra. A resistência deste vírus é superior à do HIV, mas inferior à da hepatite B; é também destruído por germicidas. O maior risco de contágio em relação ao HIV também reside no contato com sangue ou outros fluidos corporais hemorrágicos; contudo, para se manter viável necessita de condições de temperatura, humidade e pH mais rigorosas, pelo que se torna pouco resistente.

  • Tuberculose

O risco de um PS adquirir tuberculose é proporcional à prevalência/ incidência da população onde se insere e fica potenciado pela desadequação da ventilação, inexistência ou não uso dos EPI adequados e/ou quartos de isolamento. Quer os indivíduos com suspeita de tuberculose, quer os PS nas suas proximidades, devem usar máscaras com porosidade adequada. Portugal é um país com elevadas incidência e prevalência desta doença.

O aumento do número de indivíduos com alterações imunes (como HIV) aumentou os casos de tuberculose, algumas vezes com multiresistências. A infeção latente, anos mais tarde, pode se ativar. Antigamente, para o “diagnóstico”, usava-se o Teste da Tuberculina (ou de Mantoux), bastante limitado devido à dificuldade na leitura e elevado número de falsos positivos. Atualmente existem testes mais promissores, baseados no doseamento do interferão gama, sintetizado pelos linfócitos T, após estimulação pelo micobacterium tuberculosis, não existindo reação cruzada com o bacilo de Calmet- Guérin (presente na respetiva vacina, dada durante a infância em alguns países), nem com a maioria dos agentes infeciosos da mesma família, como acontece com o outro teste aqui mencionado. Contudo, ambos podem apenas demonstrar contato prévio com o microrganismo em questão e não infeção atual. Muito recentemente foram divulgados estudos que não recomendam o uso desta segunda técnica.

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  • Outros riscos biológicos

Os PSs no geral estão expostos a vários riscos biológicos, com particular incidência em alguns serviços, como é o caso da pediatria, através do contato com os fluidos corporais (como na mudança da fralda, limpeza do nariz e dos dentes). Neste contexto destacam-se a hepatite A, giardia, shigela, campilobacter, enterovírus e rotavírus; tanto mais frequentes quanto menores as medidas de higiene. No caso das profissionais grávidas, adquire particular relevância o CMV, uma vez que, além de não ter vacina, é muito facilmente transmitido pelos fluidos orgânicos (sobretudo saliva e urina) e é teratogénico. São também igualmente importantes neste contexto a varicela, rubéola e o parvovírus B19. Nos PSs são mais frequentes as resistências bacterianas, devido à seleção de microrganismos existentes no local de trabalho e/ou pelo uso frequente/ incorreto de antibióticos, eventualmente pela maior acessibilidade aos mesmos.

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ALERGIAS

  • Látex

O uso de luvas de látex entre os PSs aumentou muito nos últimos anos, devido às normas entretanto desenvolvidas; por isso, aumentaram também os casos de alergia (até 17%). Genericamente, apesar de a semiologia não ser fatal ou severa, consegue diminuir a qualidade de vida; esta carateriza-se por prurido, eritema e/ou outras reações sistémicas. Estas reações podem se intensificar se coexistir o uso frequente de produtos asséticos/ desinfetantes, bem como lavagem frequente das mãos. Dos serviços onde a intolerância ao látex foi mais significativa destacam-se as cirurgias/blocos operatórios e unidades de cuidados intensivos, sobretudo com mais de cinco anos de trabalho. Por vezes, são os próprios aditivos da borracha que também causam reações alérgicas- é o caso do thiuram, variando a sua concentração de marca para marca (esta alergia existe em 1/3 dos PS); outros componentes que também a podem causar são os carbamatos e os vulcanizadores. O pó contido no interior das luvas contém os alérgenos e podem-se assim constituir aerossóis capazes de justificar situações de rinite, asma e conjuntivite. Daí que o uso de luvas sem pó (ou com menos pó) cause menos alergias, apesar de parecerem mais dispendiosas.

  • Lesões Musculo-Eesqueléticas (LMEs)

As LMEs constituem um problema grave em alguns PSs, nomeadamente enfermeiros e auxiliares de enfermagem; ainda assim, alguns autores acreditam que o problema pode estar subestimado dado o medo em ficar com o contrato não renovado, devido a não associar o dano ao trabalho (por ignorância ou tempo de latência mais prolongado). Ainda assim, o sexo feminino oficializa a situação com uma frequência três vezes superior. Além do impacto na qualidade de vida, as LMEs levam frequentemente a maior absentismo e limitações profissionais/ pedidos de transferência de serviço e pior desempenho profissional.

A principal tarefa de risco é o manuseamento de pacientes limitados na sua mobilidade, associada a equipamentos auxiliares desadequados ou inexistentes. Os turnos prolongados aumentam o risco de LMEs, bem como o sedentarismo e o stress laboral. Outros autores também mencionam a sobreutilização das mesmas zonas anatómicas, pouco tempo de recuperação (repouso), mal-estar emocional e pouca autonomia na organização do trabalho, como horas de trabalho excessivas, ritmo acelerado, pausas insuficientes ou inexistentes, penalização e/ou gratificação em função da produtividade, chefias muito exigentes, formação inexistente ou desadequada, monotonia, mau ambiente de trabalho e ainda tarefas pouco motivantes e demasiado especializadas e/ou alternância de turnos.

A semiologia que mais frequentemente acompanha estas situações é caraterizada por dor/ desconforto, parestesias (“formigueiros”), astenia (cansaço), alterações do sono, ansiedade, síndroma depressivo, cefaleias e vertigem. A sintomatologia será vivida com maior intensidade nos profissionais previamente mais insatisfeitos com as caraterísticas e/ou condições do seu trabalho.

A prevenção das LMEs baseia-se na conjugação da ergonomia com a Ginástica Laboral ou até com exercício mais vigoroso e regular, acrescido de rotatividade de tarefas e pausas adequadas dentro do horário laboral. Quando estas lesões não são devidamente tratadas, geralmente agravam-se e/ou cronificam-se, resultando numa incapacidade e custos ainda superiores e/ou até reforma antecipada. O tratamento será mais eficaz quanto mais precocemente for instituído. A não troca por outro posto de trabalho/ tarefa pode tornar a lesão irreversível.

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AGENTES FÍSICOS

  • Radiações ionizantes

Sabe-se que as radiações ionizantes aumentam o risco de surgirem neoplasias. O efeito na célula depende da fase do ciclo celular em que a exposição à radiação surge, ou seja, se estiver em divisão celular pode ser fatal. O dano global dependerá da proporção de células em divisão que existam, no momento, no tecido atingido e da capacidade e velocidade de regeneração do órgão em questão. Independentemente da fase celular, se a radiação for breve e de baixa intensidade, as células sobreviventes podem proliferar com normalidade. Muitos dos artigos consultados mencionam estudos efetuados nos sobreviventes das bombas atómicas, tentando extrapolar as conclusões para exposições a radiações de menor intensidade, mas de forma mais contínua. Também existem estudos sobre os trabalhadores de centrais nucleares, expostos ou não a acidentes. Por vezes, também se tenta extrapolar as conclusões obtidas em estudos com animais ou quimioterápicos mas, na realidade, sabe-se muito pouco sobre as consequências da radiação menos intensa e prolongada no tempo, como é o caso da que alguns dos PSs recebem.

Acredita-se que a radiação associada aos procedimentos médicos constitua 95% da produzida pelo homem. Apesar de a evolução tecnológica ter permitido diminuir a radiação que estes profissionais são expostos em cada exame, ainda assim os procedimentos são efetuados com frequência crescente e, como a radiação é invisível, inodora e indolor, alguns profissionais banalizam a sua importância. Uma das áreas onde este fator de risco é mais importante é a Cardiologia de Intervenção, por exemplo. Num serviço onde se preste também apoio oncológico, alguns dos fármacos administrados (citostáticos, atrás mencionados) imanam radiações que, pelas características inerentes, atingem com maior intensidade os dedos e mãos dos profissionais de saúde.

Genericamente, a intensidade de radiação recebida pelo profissional depende do tipo de equipamento médico utilizado, complexidade do procedimento, distância da fonte, tamanho do paciente, EPIs ou barreiras móveis (sendo estas uma das medidas mais eficazes).

  • Radiações não-ionizantes

A tecnologia permitiu o desenvolvimento de produtos que aumentam a exposição aos campos eletromagnéticos. Contudo, a morbilidade é controversa. Ainda assim, a IARC classifica-as como “possivelmente carcinogénicas para os humanos”. Contudo, considera-se que, dentro da população global, existirão indivíduos com suscetibilidades diferentes.

Para além dos aparelhos com radiações eletromagnéticas usados pela generalidade da população (como o computador, telemóvel…), os PSs lidam, por exemplo, com alguns exames médicos baseados na ecografia, que fornecem também radiação não- ionizante.

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CONCLUSÕES

As equipas de Saúde Ocupacional a exercer em instituições de saúde têm particularidades específicas mas, mal consigam provar o seu valor, terão a potencialidade de conseguir resultados excecionais, minorando os riscos de saúde dos funcionários e aumentando a produtividade e lucros da empresa.

BIBLIOGRAFIA

Santos M, Almeida A. Principais riscos laborais dos profissionais de saúde. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line. 2016, volume 1, 1-10.

 

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Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto.
Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo).
A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).
Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto. Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo). A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).

Um comentário em “Principais riscos laborais dos profissionais de saúde

  1. Excelente resumo.
    Nas instituições de saúde, o grande desafio é mesmo fazer com que os Profissionais de Saúde adiram às recomendações dos Serviços de Saúde Ocupacional. Os grupos que menos solicitam apoio são “teoricamente” os mais preparados (Médicos e Enfermeiros), procurando essa ajuda apenas na sequencia de um acidente/incidente.
    Como diz, é possível “conseguir resultados excecionais”, mas os profissionais tem de “querer”.
    A titulo de exemplo, está a decorrer a nossa campanha de vacinação contra a gripe. O Hospital oferece a vacina a todos os profissionais, mas “apenas” 18,2% dos profissionais se inscreveram, e não é falta de empenho do Serviço de Saúde Ocupacional. Obrigado pelo artigo, que vou partilhar.

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