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Riscos ocupacionais em unidades de saúde: realidade ou ficção?

Há cerca de 20 anos têm vindo a ser criados alguns Serviços de Saúde Ocupacional (ou Serviços de Segurança, Higiene e Saúde dos trabalhadores nos Locais de Trabalho) em diversas unidades de saúde, ainda que o enquadramento legal o impusesse desde o início dos anos de 1990, independentemente da sua dimensão ou de pertencerem ao sector público ou privado. De facto, a “visibilidade” da existência de fictores de risco de natureza profissional em hospitais e outros serviços de saúde, tornou inadiável, mesmo para os mais céticos, a perspetiva urgente de organização dos meios indispensáveis à gestão desses mesmos riscos, isto é, à criação de serviços de saúde e segurança dos trabalhadores (SSST).

Só após a transposição para o direito interno português da Diretiva Comunitária sobre Segurança, Higiene e Saúde dos Trabalhadores nos Locais de Trabalho se atribuiu alguma importância à organização de serviços em todos os sectores de atividade económica, designadamente fora do sector secundário de atividade. Tais aspetos já tinham, de resto, suscitado a atenção da comunidade científica e dos representantes dos trabalhadores desde meados dos anos de 1970 e 1980 e proporcionado, nesse âmbito, alguma reflexão.

 Ainda no início dos anos 1990 (1991), um relatório elaborado pela Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho (SPMT), concluía pela necessidade de concretizar programas que contemplassem, no mínimo, ações conjugadas de monitorização ambiental e de vigilância de saúde dos técnicos de saúde, tendo em vista uma prevenção eficaz dos riscos profissionais.

Neste espaço de reflexão gostaria de destacar alguns aspetos relativos aos diversos fatores de risco de natureza profissional a que os técnicos de saúde se encontram expostos, na perspetiva das suas expectativas e necessidades. Isto é, se também para os técnicos de saúde, os riscos profissionais são perspetivados com a importância que lhes deve ser atribuída.

 Os fatores de risco de natureza profissional subdividem-se tradicionalmente, de acordo com a respetiva origem, em fatores de risco de natureza física, de natureza química, de natureza psicossocial, relacionados com a atividade e ainda fatores de risco de natureza (micro)biológica, sendo estes últimos os fatores profissionais que mais frequentemente se identificam como suscetíveis de constituir risco para os profissionais de saúde, ainda que habitualmente confinados à SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida), às Hepatites B e C e, mais recentemente, à Tuberculose multirresistente ainda que muitos outros existem como neste espaço tenho abordado.

 Alguns fatores de risco de natureza física são há muito associados ao trabalho realizado em meio hospitalar, relacionados com a exposição a radiações ionizantes. Também, os agentes relacionados com a atividade constituem exemplo, designadamente o risco de lombalgias e outras raquialgias, que têm uma prevalência importante em trabalho hospitalar.

 Nas unidades de saúde utilizam-se ainda inúmeros compostos químicos que podem ter efeitos adversos para a saúde. A lista é muito extensa, destacando-se desde logo os desinfetantes, os anestésicos voláteis, os citostáticos, os inúmeros alergénios (por exemplo, alguns antibióticos) e outras substâncias químicas, até com potencial cancerígeno.

Entre os fatores psicossociais, o risco de natureza profissional que habitualmente mais se refere é o do stress profissional (ou ocupacional) ou, ainda, relacionado com o trabalho. Todavia, muitos outros existem, como por exemplo o trabalho por turnos (incluindo o trabalho noturno) ou os fatores relacionados com a atividade profissional, como é o exemplo da tensão associada ao tempo de resposta que se exige na sua ação. Estes fatores de risco têm, nos últimos anos, capitalizado a atenção de diversas organizações profissionais na área da saúde como é o exemplo paradigmático da violência perpetrada contra os profissionais de saúde.

 A maioria dos indicadores disponíveis revela que a prestação de cuidados de saúde e segurança aos trabalhadores das instituições de saúde são, ainda, incipientes. Consequentemente, os trabalhadores da saúde constituem, objectivamente, um grupo profissional “negligenciado” em matéria de proteção da sua saúde e segurança, o que justifica a necessidade de continuar a investir em formas organizadas (e competentes) de “cuidar de quem cuida”. O Manual de Saúde Ocupacional em Hospitais1, atualmente no prelo, em que participam quase três dezenas de autores, é mais uma das muitas iniciativas para objetivar tal propósito por parte de profissionais de saúde nessa área. Oxalá possa contribuir para nos tornarmos mais eficazes e competentes nesse domínio.

 

Fote: 1 Sacadura-Leite E, Sousa-Uva A (org.). Manual de Saúde Ocupacional em Hospitais. Lisboa: Diário de Bordo, 2018 (no prelo).

 

António de Sousa Uva

Lisboa, 24 de julho de 2018

 

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António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.
António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.

2 comentários em “Riscos ocupacionais em unidades de saúde: realidade ou ficção?

  1. Uma mentira dita muitas vezes passa a verdade será como dizem ou estão a tapar o sol com a peneira implementarem um programa de saúde ocupacional para o staff da saúde levarem mais de vinte anos e fazerem

  2. Parabens pela inciativa .
    Este manual é mesmo só sobre Saúde Ocupacional em Hospitais? Há tantos profissionais de saude nos CSP!!! Ou ficamoso à espera de um segundo Manual?
    Isabel santos

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