Riscos profissionais em docentes: “dar aulas e receber doenças?”

O sector dos serviços (terciário) tem sido muito pouco valorizado em matéria de riscos profissionais, relativamente à atenção que o sector secundário tem recebido a que não será alheio, por certo, o dramatismo das situações de acidente de trabalho e, até mesmo, das doenças profissionais que aí ocorrem.

Nos últimos vinte e cinco anos, em Portugal, o sector da saúde tem merecido alguma atenção, mantendo-se a área do ensino quase que totalmente “abandonada” em matéria de riscos profissionais, designadamente a profissão docente. Tal circunstância mantém-se negligenciada, apesar do aumento das referências em meios de comunicação social a aspectos relacionados, por exemplo, com a violência nas escolas ou com outros riscos de natureza psicossocial.

As condições de trabalho e a actividade dos professores tem conduzido, no mundo mais desenvolvido, a situações muito frequentes de mal-estar e de morbilidade acrescida, designadamente os aspectos relacionados com a saúde mental, a patologia da voz e a patologia alérgica e/ou irritativa das vias respiratórias.

O professor é um profissional cuja comunicação verbal é indispensável, ainda que a qualidade vocal não seja decisiva para o seu desempenho profissional, quando comparada, por exemplo, com outros profissionais como os cantores, ainda que a sobrecarga de uso seja considerável. O professor confronta-se com horas de uso vocal contínuo em condições muitas vezes adversas do ponto de vista do ambiente (por exemplo de ruído ou das condições térmicas) e de stress. Estes, e outros factores (como por exemplo o consumo de álcool e de tabaco), podem contribuir para o facto de estarem entre os grupos profissionais que, com frequência, procuram apoio para a solução de problemas vocais.

Os sintomas vocais mais referidos são a fadiga vocal, a rouquidão, a voz mais fraca que o habitual, o esforço vocal e os problemas médicos que influenciam a voz como por exemplo, a inflamação das vias aéreas superiores. Os sintomas de desconforto físico mais referidos são a sensação de cansaço, de secura, de desconforto e até de dor.

Também no que diz respeito ao campo da Psiquiatria e da Saúde Mental, a profissão docente surge como área profissional de risco. Entidades como o “stress”, o “burnout” e a depressão são frequentemente referidas. A ubiquidade de factores de “stress” na vida dos professores do ensino básico e secundário tem levado a uma maior prevalência de síndromes de “burnout” (que alguns denominam “esgotamento”) e de depressão clínica. Existe ainda também muito trabalho a desenvolver na avaliação e na gestão do risco para os distúrbios ansiosos e a depressão, bem como na sua abordagem mais eficiente no que toca à profissão docente.

A patologia alérgica e “irritativa” das vias respiratórias é também referida com frequência, ainda que constitua uma área nem sempre completamente esclarecida nas suas ligações às situações concretas de trabalho.

De facto, as situações de risco profissional nos docentes e os efeitos com eles relacionados não se enquadram facilmente nas relações “tradicionais” trabalho/doença, paradigmaticamente representadas pela exposição a fatores de riscos físicos ou químicos. Talvez essa seja uma das razões para a subvalorização que têm em todos os níveis de intervenção designadamente em Saúde Ocupacional, no seu sentido mais restrito, e até mesmo a nível das políticas públicas em matéria das relações entre o trabalho e a doença.

Lisboa, 23 de janeiro de 2019

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António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.
António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.

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