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Saúde Ocupacional aplicada a Marceneiros e Carpinteiros

INTRODUÇÃO/ ENQUADRAMENTO/ OBJETIVOS

Os profissionais a trabalhar em equipas de Saúde Ocupacional, mesmo não diretamente ligados ao setor da Marcenaria e Carpintaria, podem receber trabalhadores com esses antecedentes laborais, pelo que poderão sentir necessidade de aprofundar os seus conhecimentos.

 

CONTÉUDO

  • Partículas derivadas da madeira

Cerca de 3,6 milhões de trabalhadores europeus estão/ estiveram expostos aos derivados da madeira, de forma regular; sobretudo na Alemanha, Espanha, Reino Unido, Itália, Polónia e França; Portugal surge em nono lugar.

Os marceneiros e os carpinteiros são os dois grupos profissionais mais expostos às partículas derivadas da madeira, sobretudo devido às máquinas que utilizam, geralmente em ambientes fechados e/ou com ventilação desadequada. As áreas com maior risco são a da construção civil e a de fabrico de móveis; pois a exposição na exploração florestal e construção naval é mais discreta. O impacto na saúde dependerá sobretudo do tipo de madeira e produtos químicos nela utilizados, bem como da intensidade e cronicidade da exposição. Para além disso, máquinas totalmente automatizadas trabalham geralmente a uma velocidade superior, pelo que geram e dispersam mais poeiras, ainda que existam menos trabalhadores expostos na proximidade.

A concentração das partículas derivadas da madeira em ambientes fechados estará correlacionada com a ventilação, métodos de limpeza e a evicção do uso de ar comprimido. O contato com partículas orgânicas pode causar sintomas irritativos e/ ou alérgicos; após a inalação as partículas podem ser depositadas nas vias respiratórias, em função do seu diâmetro, agregação/ aglomeração e comportamento no ar. As atividades de modelagem e lixagem estão associadas a níveis mais elevados de exposição (devido às partículas produzidas terem menor dimensão)- por sua vez, os processos que envolvem o corte da madeira já produzem partículas maiores; para além disso, o tipo e a quantidade de partículas produzidas também depende da densidade da madeira.

Na realização das provas de função respiratória é frequente encontrar diminuição de alguns parâmetros, sobretudo nos profissionais mais expostos e à medida que o turno progride. Alguns autores defendem até a possibilidade de, a longo prazo, existir probabilidade aumentada de surgir uma doença pulmonar crónica obstrutiva.

A pneumonite por hipersensibilidade ocorre quando partículas de pequena dimensão se alojam nas vias aéreas, originando uma reação alérgica; nesta realça-se também o contributo associado aos fungos e bactérias presentes em algumas madeiras. O início da semiologia (sinais e sintomas) pode ser tão breve quanto horas ou dias, sendo a situação facilmente confundida com infeção respiratória viral. Com a cronicidade da exposição os estragos poderão tornar-se irreversíveis.

A semiologia globalmente mais frequente é caraterizada por irritação ocular (prurido e eritema), obstrução nasal a alternar com rinorreia (fluxo nasal), irritação da mucosa nasal, espirros, tosse e dispneia (dificuldade respiratória). A alergia secundária ao contato com a madeira associa-se não só aos constituintes desta, mas também aos produtos químicos e eventuais agentes biológicos presentes.

A asma geralmente cursa com dispneia, pieira (respiração ruidosa), tosse e desconforto torácico; geralmente inicia-se algumas horas após a exposição. Em alguns casos as vias respiratórias podem ficar hipersensibilizadas, pelo que ficam mais reativas com a mesma intensidade de exposição ou igualmente reativas com menor exposição.

Para além da asma, existem estudos onde se verificou um aumento na prevalência da alveolite alérgica, bronquite, rinite, conjuntivite e até cancro sino-sinusal. Aliás a IARC- International Agency for Research on Cancer- considera que as poeiras derivadas da madeira são carcinogénicas em humanos. As principais neoplasias destacadas são o adenocarcinoma das cavidades nasais e seios perinasais; outros investigadores também mencionam o cancro do pulmão, faringe, estômago e colón. O uso de máscaras de pano não proporciona qualquer proteção neste contexto, apesar de serem utilizadas em alguns países. Em 1987 a IARC tinha assinalado que as patologias oncológicas mais frequentemente associadas à exposição à madeira eram os tumores nasais e perinasais, linfomas, leucemias, sarcomas dos tecidos moles da faringe/ laringe, pulmão, estômago e doença de Hodking; posteriormente considerou que o risco estava provado com clareza apenas para as primeiras duas situações. Ainda segundo a IARC, o cancro naso-sinusal está associado sobretudo à faia e ao carvalho.

Quanto a este fator de risco, a NIOSH (United States National Institute of Occupational Safety and Health) recomenda que não se ultrapasse o nível de 1 mg/m3 na atmosfera de trabalho, para turnos de oito horas; contudo, na Turquia e na União Europeia, por exemplo, esse cut-off é cinco vezes superior.

Para caraterizar a realidade portuguesa, foi realizado um estudo entre 2000 e 2003, que estimou que cerca de 110.000 trabalhadores portugueses estavam expostos a partículas de madeira, ou seja, cerca de 2,7% da população ativa; subdivididos sobretudo por 49.000 na indústria do mobiliário, 15.000 na carpintaria associada à construção civil, 10.000 em serrações, 3.000 a trabalhar com placas de madeira e 11.000 na área florestal. Os níveis mais elevados de exposição foram encontrados na atividade de fabrico de móveis; neste contexto, o pinho parece ser a madeira macia mais utilizada. Cerca de 14,5% dos profissionais expostos (16.000 indivíduos) têm um nível superior a 5 mg/m3; contudo, 22% não atingiam 0,5 mg/m3; ou seja, a exposição é muito frequente, mas na generalidade dos casos não é ultrapassado o limite imposto nas normas europeias. Uma estimativa anterior (de 1990 a 1993) calculava que existissem 85.000 trabalhadores portugueses expostos aos derivados da madeira.

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  • Agentes químicos

Em alguns setores da indústria da madeira são utilizados solventes (tintas, vernizes, colas e lacas); que contêm tolueno, benzeno e/ ou xileno. Para além disso, podem ser adicionados à madeira alguns produtos, para dar resistência aos microrganismos e maior durabilidade, como é o caso do arsénio, crómio, cobre, creosoto, pentaclorofenol, formaldeído e fenol. As principais consequências na saúde humana são cognitivas, neurológicas e emocionais, ou seja: diminuição da memória, anosmia (alteração no olfato), cefaleia, vertigem, alterações nos reflexos, palpitações, bem como eventual euforia e ansiedade. Outros investigadores defendem também a existência de um efeito carcinogénico em algumas situações.

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  • Agentes biológicos

A madeira pode conter microrganismos (como fungos) e/ ou as respetivas toxinas, sobretudo na casca, originando a síndroma tóxica associada a poeiras orgânicas. O risco aumenta durante o processamento da madeira, quando estes elementos passam a circular via aérea.

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  • Cargas/ LMEs

Alguns estudos avaliaram a existência de algias em marceneiros e verificaram que as queixas eram mais frequentes nos membros superiores, coluna e membros inferiores. Alguns autores destacaram, neste contexto (para além do manuseamento de cargas, por vezes, muito elevadas) a repetição do movimento em algumas tarefas como, por exemplo, no aparafusamento de dobradiças.

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  • Queda de objetos e queda ao mesmo nível

Dado estes profissionais trabalharem com peças, por vezes, de elevadas dimensões e carga; em caso de queda em cima do trabalhador, geralmente surgem consequências médicas relevantes. Por sua vez, dado no chão ser frequente a existência de madeiras e ferramentas, também não é rara a queda ao mesmo nível.

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  • Postura de pé mantida

A generalidade das tarefas destes profissionais é executada de pé e geralmente num contexto mais estático que dinâmico, pelo que tal poderá ter consequências músculo-esqueléticas e/ou vasculares.

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  • Máquinas perigosas- acidentes

A generalidade das máquinas utilizadas neste setor profissional, além de produzir ruído e vibrações, tem a capacidade de causar acidentes graves.

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  • Ruído

A generalidade dos países considera como “aceitável” a exposição até os 85 dBA. Acredita-se que o ruído induz a produção de radicais livres que irão diminuir a circulação sanguínea coclear. Quando a exposição laboral é continuada, a hipoacusia (diminuição da audição) é mais notória, uma vez que fica diminuído o tempo de recuperação disponível. Esta questão representa uma parte substancial das doenças profissionais na generalidade dos países, à qual se associa um custo avultado, quer económico, quer social (devido a alterações emocionais, maior risco de acidentes e menor qualidade de vida geral). Para além da hipoacusia, também podem surgir acufenos (zumbidos).

Nos últimos anos têm sido publicados artigos que alertam para a possibilidade do ruído também se associar a várias alterações cardiovasculares (como hipertensão arterial, taquicardia e isquemia do miocárdio), alterações do sono, respiratórias (asma), obstétricas (aborto espontâneo) e imunológicas; bem como consequências a nível do desempenho e variáveis psicológicas (ansiedade, irritabilidade, depressão, desorientação, alteração na capacidade concentração e de aprendizagem). A explicação fisiopatológica reside no facto de o ruído atuar como agressor no sistema nervoso autónomo e, consequentemente, no sistema endócrino.

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  • Vibrações

A vibração pode ser definida como movimento oscilatório, que implica uma alteração da velocidade e direção do deslocamento (“vai e vem”). As vibrações com exposição breve levam a alterações fisiológicas minor; a exposição crónica, por sua vez, poderá levar a lesões irreversíveis.

 

  • Desconforto térmico

A existência de desconforto térmico diminui a produtividade e satisfação do trabalhador, aumentando também o risco de acidente, em alguns casos.

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  • Baixa iluminância

A iluminação é fundamental para atenuar a fadiga visual e alguns acidentes. Para além disso, a acuidade visual fica também poderá ficar prejudicada pelos níveis elevados de poeiras a circular.

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  • Medidas de proteção coletiva

Estas englobam a modernização/ automatização das máquinas, o encapsulamento na fonte, ventilação adequada, rotatividade, vigilância para a saúde dos trabalhadores, troca por produtos menos tóxicos (quando possível), instalações que proporcionem uma correta lavagem das mãos e limpeza adequada (por exemplo, não utilizar ar comprimido mas aspiração por vácuo), fichas de segurança disponíveis e formação; bem como a execução das tarefas mais problemáticas nos momentos em que estão menos funcionários presentes e limitar a permanência dos funcionários nas áreas e momentos com maior risco.

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  • Medidas de proteção individual

Aqui destacam-se o uso de máscara com filtro adequado, luvas, óculos, fato/ farda, calçado com reforço superior de aço e proteção auricular.

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  • Doenças profissionais

Para além da patologia oncológica, também podem ser consideradas doenças profissionais neste setor a dermatite, urticária, conjuntivite, rinite, asma, pneumonite por hipersensibilidade e a alveolite alérgica intrínseca.

A dermatite, por exemplo, pode ocorrer por irritação mecânica, contato com os agentes químicos, com os derivados da madeira e/ou com os microrganismos existentes.

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CONCLUSÕES

A generalidade dos trabalhadores deste setor profissional não se apercebe da importância ou intensidade de alguns riscos, pelo que, por vezes, menospreza algumas medidas de proteção coletiva e/ ou individual. A formação profissional terá eventualmente hipótese de sensibilizar funcionários e chefias e assim poder-se-ão obter melhorias a nível de sinistralidade, doenças profissionais e qualidade de vida geral.

Os principais riscos/ fatores de risco laborais deste setor são o contato com os derivados da madeira, a utilização de máquinas com probabilidade razoável de causarem acidentes com alguma gravidade, bem como a manuseamento de cargas, queda de objetos, lesões músculo-esqueléticas, ruido, vibrações, agentes químicos e agentes biológicos.

Na bibliografia consultada são mencionadas diversas medidas de proteção coletiva aplicáveis a este setor. A nível de medidas de proteção individual são realçados a máscara com filtro adequado, luvas, óculos, fato/ farda, calçado com reforço superior de aço e a proteção auricular.

As principais doenças profissionais estão associadas à patologia oncológica nasal e dos seios perinasais, bem como asma, pneumonite por hipersensibilidade, dermatite, urticária, conjuntivite, rinite, asma e a alveolite alérgica intrínseca.

Não só os dados apresentados nesta revisão reúnem de forma muito sucinta o que de mais recente se publicou sobre a saúde laboral neste setor (em português e utilizando artigos que abordavam aspetos muito parcelares e escritos noutras línguas), de forma a proporcionar um fácil acesso a esta informação da parte dos profissionais que se iniciem neste setor; como também se percebeu que a realidade portuguesa não está suficientemente retratada, pelo que seria pertinente motivar os profissionais da saúde ocupacional que trabalham no ramo (ou venham a trabalhar) para investigar aspetos relevantes do tema, divulgando as conclusões obtidas através da publicação de artigos.

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BIBLIOGRAFIA

Santos M, Almeida A. Principais riscos e fatores de risco ocupacionais dos marceneiros e carpinteiros, bem como doenças profissionais associadas e medidas de proteção recomendadas. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line. 2016, volume 1, 1-10.

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Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto.
Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo).
A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).
Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto. Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo). A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).

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