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Saúde Ocupacional aplicada à Ourivesaria, Joalharia e Relojoaria

Os profissionais a trabalhar em equipas de Saúde Ocupacional, mesmo que não diretamente ligados a este setor, podem receber trabalhadores com esses antecedentes laborais, pelo que poderão sentir necessidade de aprofundar um pouco os seus conhecimentos na área. Os profissionais deste setor estão sujeitos a diversos riscos/ fatores de risco, alguns dos quais pouco divulgados; para além disso, a generalidade da bibliografia consultada aborda riscos específicos e parcelares, não sendo fácil encontrar uma perspetiva global, a nível de Saúde Ocupacional.

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CONTEÚDO

Este setor inclui a produção de relógios (e acessórios), moedas, filigrana e joias (incluindo eventualmente a inserção e trabalho de pedras semi-preciosas ou preciosas). As principais etapas são a fundição em chapa ou fio ou injeção de moldes e eventualmente laminagem, trefilação, maquinação, banhos, polimento, autenticação (“contraste”) e embalagem.

  • Agentes químicos

O cádmio é um metal tóxico frequentemente usado na Ourivesaria tradicional, sobretudo para trabalhar/ moldar o ouro e a prata. As peças de prata, por exemplo, chegam a ter 30% deste elemento. A exposição ocorre quer na elaboração da peça, quer no seu polimento, sobretudo devido à inalação de fumo/ poeira. Na bibliografia estão descritos danos agudos e crónicos, nomeadamente a nível renal, cardiovascular, respiratório (como enfizema, devido à destruição da arquitetura alveolar) e neuropsiquiátrico; alguns autores descrevem que a densidade óssea pode ser alterada. Algumas investigações também alertam para a associação com patologia oncológica pulmonar, renal, prostática e pancreática- aliás a IARC (International Agency for Research on Cancer) considerou-o, em 1992, como carcinogénico do grupo I. Ainda dentro das alterações respiratórias, um estudo que seguiu 133 ourives indianos conclui que estes apresentavam diminuição da função respiratória e semiologia associada a tal condição. A nefrotoxicidade, por sua vez, poderá ser manifestada pela insuficiência renal progressiva associada à disfunção glomerular e dos tubos renais proximais.

Para além disso, alguns autores salientam que neste setor não é raro o uso de nitratos, cloreto de amónio, corantes com anilina e aqua regia (ácido nítrico e ácido clorídrico). Os nitratos poderão alterar as propriedade da hemoglobina e/ou serem carcinogénicos. O cloreto de amónio, por sua vez, é irritante para os olhos, pele e vias respiratórias. A anilina pode originar alterações a nível dos glóbulos brancos e vermelhos. Por fim, mesmo em fichas de segurança do produto “aqua regia”, os dados relativos às consequências médicas da inalação são escassos, referindo contudo a possibilidade de queimadura na boca e orofaringe (em caso de ingestão) e eventual irritação ocular.

A intolerância ao níquel tem sido cada mais diagnosticada (mesmo contanto com o efeito benéfico que a legislação conseguiu ao reduzir a concentração deste em vários produtos), não só entre a população geral (através do contato com joias, implantes dentários e outros dispositivos médicos, botões da roupa, moedas, instrumentos) … como também é especialmente prevalente entre os trabalhadores associados à produção de objetos em metal, sobretudo com tarefas ligadas a fornos (risco 1,75 superior). Apesar de nenhum dos artigos selecionados ter relatado as consequências médicas deste produto, estas incidem sobretudo na irritabilidade cutânea e reações asmatiformes. A maior toxicidade ocorre perante a interação com o monóxido de carbono, originando carboneto de níquel; a semiologia mais frequente é caraterizada por cefaleias, náusea, vómito, tosse e hiperpneia. Alguns autores também o associam a patologia oncológica pulmonar e das estruturas nasais.

  • Dimensão Ergonómica

Diversas tarefas neste setor profissional exigem posturas mantidas e/ou forçadas; uma disposição ergonómica menos correta potenciará ainda mais a ocorrência de lesões músculo-esqueléticas e o desconforto. Por fim, a baixa iluminância também poderá intensificar este fator de risco.

O facto de se utilizarem peças de pequena dimensão colocadas manualmente na joia e/ou se usarem ferramentas para o seu manuseamento, tal pode justificar o aparecimentos destas lesões, sobretudo pela repetição de movimentos, sobretudo a nível da mão, punho e antebraço.

Para além disso, a precisão necessária a estas tarefas exige que o trabalhador use sempre a mão com maior coordenação, ou seja, nunca poderá trocar o uso da mão esquerda pela direita e vice-versa.

Em alguns subsetores é também frequente o manuseamento de cargas e, quando estas são depositadas no chão, também podem ocorrer quedas ao mesmo nível por tropeçarem nas mesmas.

Com os métodos mais artesanais para trabalhar o ouro é frequente a atividade de sopro para o modelar à forma desejada. Este procedimento, além de moroso, também exige a produção de uma pressão positiva através de um fluxo expiratório controlado, o que facilmente poderá induzir astenia a nível da musculatura facial (sobretudo no bucinador e no orbicular da boca), manifestada por tremor e dor, bem como alterações respiratórias (transpostas nas provas de função associadas).

  • Esforço visual

Algumas tarefas neste setor são muito minuciosas e/ou envolvem o manuseamento de peças de dimensão muito pequena e, geralmente, com turnos prolongados, pelo que não é raro o desconforto visual. A situação piora ainda mais com baixa iluminância, diminuta frequência de piscar de olhos (e consequente maior secura ocular), ângulos visuais restritos, convergência próxima e contrastes desadequados.

  • Silicose e outras patologias respiratórias

A forma cristalina da sílica designa-se por quartzo e neste podem existir outros constituintes misturados (que proporcionam diferentes propriedades, nomeadamente a cor).

A exposição crónica à sílica também poderá potenciar a ocorrência de tuberculose e até, segundo alguns autores, de patologia oncológica pulmonar. Dado ser a pneumoconiose mais frequente a nível mundial, é objetivo da Organização Mundial de Saúde erradicar a mesma até 2030.

A silicose é uma doença profissional lentamente progressiva que surge após exposição geralmente prolongada a poeiras com elevada concentração de sílica. Comparando este setor profissional com outros, alguns autores defendem que esta patologia é mais grave e progressiva em ourives. A patologia é irreversível, continua a progredir após a interrupção da exposição e é eventualmente fatal. Como não há tratamento eficaz, dever-se-á apostar na prevenção. O atingimento respiratório costuma ser significativo quando os níveis de sílica são superiores a 0,1 mg/m3. A silicose crónica resulta de vinte ou mais anos de exposição; a aguda apenas de alguns meses; poderá ocorrer uma versão intermédia de quatro a oito anos, desde que a concentração seja elevada11.

Em países com menor desenvolvimento da Saúde Ocupacional o EPI (equipamento de proteção individual) fornecido, por vezes, consiste numa máscara frágil que geralmente se rasga após dois a três dias de uso, não sendo reposta pelo empregador com a frequência necessária. Para além disso, a nível de medidas de proteção coletiva, o local poderá ser limpo com uma frequência muito inferior à desejável; não será neste contexto usual existir acompanhamento médico e os turnos podem geralmente prolongados.

A ágata é uma pedra semipreciosa muito utilizada em alguns contextos no setor da joalharia; as poeiras resultantes do seu manuseamento contêm sílica (sobretudo nas etapas de corte e esmerilamento, cujas dimensões podem atingir os 2 a 5 micrómetros), pelo que estes trabalhadores apresentam uma incidência aumentada de silicose e bronquite crónica; a prevalência é tanto superior quanto menor a ventilação e menor for o uso de EPIs adequados. As alterações restritivas no padrão respiratório geralmente surgem antes das alterações radiológicas.

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CONCLUSÕES

Os principais fatores de risco destes setores profissionais estão associados a agentes químicos, questões ergonómicas (posturas mantidas, movimentos repetitivos) e o esforço visual. A nível de doenças profissionais (para além das questões músculo-esqueléticas associadas) é dado realce à silicose.

Seria interessante que as Equipas de Saúde Ocupacional a laborar nesta área investigassem o tema e publicassem dados associados ao seu trabalho.

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BIBLIOGRAFIA

Santos M, Almeida A. Ourivesaria, Joalharia e Relojoaria: principais riscos e fatores de risco laborais, doenças profissionais associadas e medidas de proteção recomendadas. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line. 2017, volume 3, 1-13.

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Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto.
Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo).
A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).
Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto. Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo). A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).

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