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Saúde Ocupacional aplicada ao setor da panificação

INTRODUÇÃO

Os profissionais a trabalhar em equipas de Saúde Ocupacional, mesmo não diretamente ligados ao setor da Panificação, podem receber trabalhadores com esses antecedentes laborais, pelo que poderão sentir necessidade de aprofundar um pouco os seus conhecimentos na área. Pretendeu-se com esta revisão bibliográfica resumir o que de mais relevante e recente se publicou sobre o tema.

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CONTÉUDO

  • Cargas, movimentos repetitivos, posturas forçadas e LMEs (lesões músculo-esqueléticas)

Devido à repetição frequente de movimentos e à força que é necessário exercer em algumas tarefas, não são raras, por exemplo, patologias como a síndrome do túnel cárpico ou tendinites. As cargas (sobretudo de matérias-primas) podem necessitar de ser içadas do chão ou de prateleiras elevadas (acima do nível dos ombros), bem como de locais de acesso dificultado e/ou com obstáculos. Para além disso, as próprias ferramentas/ máquinas utilizadas podem ser pesadas, exigir aplicação de força para funcionarem e/ou apresentarem vibrações. Entre estes profissionais as algias mais frequentemente descritas são a gonalgia (64%), dorsalgia (52%) e a lombalgia (48%); bem como cervicalgia e dor nos tornozelos/ pés.

A mobilização de cargas também poderá aumentar o risco de acidente (pela alteração no equilíbrio e/ou diminuição do campo visual), sendo tal mais frequente nas cargas com maior peso, maior dimensão, dificuldade de preensão e/ou formato irregular, bem como pavimento não uniforme e/ou com atrito desadequado. Para além da queda ao mesmo nível, a mobilização de cargas também poderá permitir a queda de objetos em cima do trabalhador.

A postura de pé mantida também poderá aumentar a probabilidade de surgir doença venosa, ou seja, veias varicosas (“varizes”) ou se agravar o estado da mesma, caso esta já exista.

  • Risco biológico e alérgenos

Alguns investigadores descrevem que, em função das farinhas existentes nos locais de panificação, a concentração de ácaros costuma ser elevada. Para além disso, temperaturas elevadas e maior humidade proporcionam boas condições para o seu desenvolvimento.

A asma ocupacional é a patologia respiratória mais prevalente em países industrializados; aliás, esta justifica 5 a 15% de todos os casos que surgem na idade adulta. Pode definir-se como sendo a obstrução reversível do fluxo aéreo e hiperatividade brônquica secundária a alguma condição presente no ambiente laboral. Na generalidade dos casos é necessário um tempo de latência de meses a anos para que ocorra a sensibilização (mas nos indivíduos atópicos esse período pode ser menor). A obstrução e respetiva reversibilidade deverão confirmar o diagnóstico.

Os padeiros têm acesso a inúmeros alérgenos, nomeadamente os derivados da farinha de trigo, alguns aditivos e microrganismos (como os ácaros). Dentro dos cereais são justamente os derivados da farinha de trigo os que mais frequentemente causam asma ocupacional; outros cereais implicados são o centeio, cevada, arroz, avena e o milho. Por vezes, até alguns componentes do ovo (como a proteína da clara)- usado mais frequentemente a nível da pastelaria, podem desencadear episódios de asma.

A asma é o motivo médico principal que leva à troca de profissão neste setor profissional. Em alguns trabalhadores ela pode ser precedida pela rinite.

  • Alterações cronobiológicas

Os turnos realizados por alguns padeiros são noturnos, ainda que em menor frequência em relação ao passado, o que pode contribuir para a cronodisrrupção; a rotatividade de turnos, caso exista, potencia ainda mais o problema.

Na primeira noite de trabalho geralmente não se verifica diminuição significativa do desempenho mas, nas noites seguintes, tal já ocorre; as pausas/ sestas, por sua vez, diminuem o risco de acidentes de trabalho. Alguns autores até defendem que a mortalidade dos trabalhadores por turnos noturnos é superior à dos trabalhadores que só fazem ou fizeram turnos diurnos e regulares. Durante a noite a secreção de cortisol e adrenalina é baixa, acontecendo o oposto durante o dia; assim, para os trabalhadores que tentam dormir durante o dia, o sono será mais curto e menos reparador e terão pior desempenho durante a noite.

A Agência Internacional de Pesquisa para o Cancro (IARC) classificou o trabalho por turnos noturnos como “provavelmente carcinogénico”, em função da cronodisrrução.

  • Iluminância

Uma vez que parte dos turnos é noturna ou em salas sem luz natural, o nível de iluminância pode ser desadequado, aumentando o cansaço e a probabilidade de acidente.

  • Desconforto térmico

Devido aos fornos é frequente existir desconforto térmico associado às temperaturas elevadas e à transição destas para a temperatura ambiente. Ambiente térmico pode ser definido como um conjunto de variáveis associadas à temperatura que influenciam, de forma direta ou indireta, a saúde e bem-estar dos trabalhadores; ainda que também haja interação com a suscetibilidade individual e aclimatização. Por sua vez, a sensação térmica é uma resposta psicológica do indivíduo, influenciada por variáveis subjetivas (como personalidade) e objetivas (como roupa e atividade física).

  • Ruído

Quando a exposição laboral é contínua, a hipoacusia (diminuição da audição) é mais provável de ocorrer, uma vez que fica diminuído o tempo de recuperação disponível. Esta representa uma parte substancial das doenças profissionais na generalidade dos países, pelo que implica um custo avultado, quer económico, quer social (devido ao isolamento, depressão, maior risco de acidentes e menor qualidade de vida geral). A condição é por isso irreversível, mas sujeita a prevenção. Nos últimos anos têm sido publicadas investigações que sugerem a possibilidade do ruído também associar-se a várias alterações cardiovasculares (hipertensão arterial, taquicardia- aumento da frequência cardíaca e isquemia do miocárdio- enfarte e angina de peito), alterações do sono, respiratórias (como asma), obstétricas (aborto espontâneo) e imunológicas; bem como consequências emocionais e a nível do desempenho (como ansiedade, irritabilidade, depressão, desorientação, alteração na concentração e aprendizagem). A explicação fisiopatológica reside no facto de o ruído atuar como stressor no sistema nervoso autónomo e, consequentemente, no endócrino também.

  • Vibrações

Algumas máquinas utilizadas neste setor apresentam vibrações, pelo que alguns funcionários, momentaneamente, podem estar sujeitos às mesmas. As vibrações com exposição breve levam a alterações fisiológicas minor; a exposição crónica, por sua vez pode levar a alterações irreversíveis.

  • Risco oncológico

Algumas investigações sugeriram que os padeiros poderiam apresentar maior risco de cancro pulmonar, contudo, a conclusão não é consensual. Pois, para além do risco cancerígeno associado à disrupção cronobiológica, um dos estudos onde tal dado surgiu verificou-se, posteriormente, que existia o enviesamento associado ao facto de os fornos utilizados serem revestidos por asbestos (sendo que estes foram entretanto banidos da generalidade dos países).

  • Medidas de proteção coletiva e individual

A nível de medidas de proteção coletiva eventualmente adequadas a este setor profissional podemos destacar o isolamento das tarefas com maior perigo, diminuição do número de funcionários expostos às situações mais gravosas, rotatividade de tarefas, acesso a formação profissional adequada, bem como equipamentos modernizados e mantidos em bom estado, além de sistemas ajustados de ventilação e higienização. A nível de medidas de proteção individual poderá ser realçado o uso de farda/ bata/ avental, touca, máscara/ viseira, luvas, manguitos, calçado antiderrapante/ com biqueira de aço e proteção auricular, se pertinentes, avaliando cada caso em específico.

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CONCLUSÕES

A generalidade dos trabalhadores do setor da panificação não se apercebe da importância ou intensidade de alguns riscos, pelo que, por vezes, menospreza algumas medidas de proteção coletiva e/ou individual. A formação profissional terá eventualmente hipótese de sensibilizar funcionários e chefias e assim poder-se-ão obter melhorias a nível de sinistralidade, doenças profissionais e qualidade de vida geral.

Os principais riscos/ fatores de risco associados ao setor da Panificação relacionam-se com o manuseamento de cargas, posturas forçadas/ mantidas e eventuais LME; agentes biológicos e alérgenos; disrupção cronobiológica; iluminância desadequada; eventual desconforto térmico (devido a temperaturas elevadas e diferença de temperaturas); bem como algum ruído, vibrações e eventuais lesões associadas às máquinas utilizadas.

As principais doenças profissionais neste setor mencionadas na bibliografia consultada são a asma, a hipoacusia e, eventualmente, algumas lesões músculo-esqueléticas.

Não só os dados apresentados nesta revisão reúnem de forma muito sucinta o que de mais recente se publicou sobre a saúde laboral neste setor (em português e utilizando artigos que abordavam aspetos muito parcelares e escritos noutras línguas), de forma a proporcionar um fácil acesso a esta informação da parte dos profissionais que se iniciem neste setor; como também se percebeu que a realidade portuguesa não está suficientemente retratada, pelo que seria pertinente motivar os profissionais da saúde ocupacional que já trabalhem no ramo (ou venham a trabalhar) para investigar aspetos relevantes do tema, divulgando as conclusões obtidas através da publicação de artigos.

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BIBLIOGRAFIA

Santos M, Almeida A. Principais riscos e fatores de risco ocupacionais, doenças profissionais associadas e medidas de proteção recomendadas no setor da panificação. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional on line. 2016, volume 1, 1-8.

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Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto.
Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo).
A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).
Mónica Santos

Mónica Santos

Licenciada em Medicina; Especialista em Medicina do Trabalho; Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Ciências do Desporto. Diretora Clínica da empresa Quércia (Viana do Castelo). A exercer Medicina do Trabalho também nas empresas Cliwork (Maia), Clinae (Braga), Medicisforma (Porto), Sim Saúde (Porto), Servinecra (Porto) e Radelfe (Paços de Ferreira).

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