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Saúde Respiratória e Trabalho: vícios privados e públicas virtudes?

Ao longo dos tempos, o modo como a Medicina tem abordado os problemas de saúde dos doentes tem sofrido alterações marcadas, de acordo com a evolução dos paradigmas da saúde/doença e as várias alterações sociais, políticas e institucionais, inclusive no plano legislativo. Assim, se em meados do século XIX a Medicina obedecia a um modelo biomédico-sanitário e, após a 2.ª Guerra Mundial, a um modelo médico-social ou biopsicossocial, desde os anos de 1970 até à atualidade os profissionais têm-se regido por um modelo mais comunitário, que se pretende também mais abrangente, transversal e complexo, encarando a saúde muito para além dos aspectos relativos à componente física de cada indivíduo doente.

A abordagem da saúde para além da «ausência de doença», envolvendo a componente médica integrada com outros aspectos, designadamente sociais e ocupacionais, permite ganhos para o sistema de saúde, adaptando-se ao contexto atual da evolução daqueles paradigmas de saúde. No entanto, a implementação e a operacionalização destes conceitos apresenta dificuldades, devido à insuficiência de metodologias e instrumentos face a outros modelos de natureza mais quantitativa e objetiva.

No contexto da saúde respiratória, a realidade portuguesa apresenta um défice importante na sua promoção, designadamente no que se refere à intervenção nas fases iniciais da doença, localizando-se o foco de atenção mais na resolução das complicações e em questões relacionadas com prestação de cuidados como, por exemplo, a acessibilidade às consultas e aos tratamentos.

A sustentabilidade das medidas implementadas no contexto dos sistemas de saúde na área da prevenção, designadamente no âmbito da saúde respiratória, deveria, porém, ser muito mais privilegiada. Assinale-se o importante esforço na prevenção dos hábitos tabágicos da última década e o não tão grande esforço na prevenção das doenças respiratórias profissionais.

Por exemplo, o apoio ao trabalhador na cessação tabágica no contexto da Saúde Ocupacional e da Medicina do Trabalho ainda não foi estabelecido, pelas organizações, como um aspeto prioritário no contexto da abordagem da saúde e segurança dos seus trabalhadores. Note-se que em relação aos hábitos de consumo de bebidas alcoólicas e de outras substâncias aditivas a atenção prestada é um pouco maior, ainda que também insuficiente.

Em Portugal, os indicadores de mortalidade por doenças cardiovasculares ou o cancro “escondem” as doenças respiratórias, assim como no contexto do trabalho na última década, as doenças respiratórias foram “esmagadas” pelas lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho. No entanto, as doenças respiratórias têm uma importância incontornável, seguramente superior à que lhe é conferida no planeamento das ações que objetivam a sua prevenção.

Quer o sector público quer o sector privado, em todos os campos de atividade económica, têm um amplo e aberto espaço de actuação no contexto da saúde respiratória, designadamente pela implementação de políticas de prevenção e promoção da saúde, valorizando a prestação de cuidados enquanto serviço ou produto, sujeito às normas de avaliação de custo/utilidade, de acordo com os princípios económicos aplicados ao sector da saúde.

Os locais de trabalho são locais privilegiados para tal tipo de políticas, quer em aspetos dos hábitos de vida dos trabalhadores, quer na prevenção do risco de doença respiratória “ligada” ao trabalho. É que um doente saudável do seu aparelho respiratório torna por certo mais saudável a organização onde trabalha, uma vez que é um dos seus ativos mais valiosos.

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António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.
António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.

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