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Segurança do Doente e Saúde e Segurança do prestador de cuidados: duas faces da mesma moeda

As questões relacionadas com a qualidade em saúde têm vindo a adquirir uma importância crescente, inicialmente em matérias essencialmente relacionadas com a acreditação de unidades de saúde ou a satisfação de clientes. Mais recentemente, os aspectos relativos ao erro clínico, ao erro medicamentoso, à infecção associada aos cuidados de saúde, aos erros relacionados com transfusões sanguíneas e a outros eventos adversos, têm vindo a ocupar a atenção dos cidadãos, de profissionais de saúde e de gestores.

De facto os aspectos da Segurança do Doente associados à ocorrência de efeitos indesejados, principalmente os evitáveis (ou preveníveis), em doentes submetidos a prestação de cuidados tem, pela sua frequência e gravidade, desencadeado diversas iniciativas de avaliação e gestão do risco em unidades de saúde, principalmente em hospitais.

A abordagem em Segurança do Doente tem-se centrado muito numa perspectiva de acontecimento ocasional e acidental em que as variáveis individuais são frequentemente consideradas decisivas para a sua ocorrência, como muitas vezes é interpretado o modelo de notificação de eventos adversos. No entanto, diversos aspectos relativos aos ambientes hospitalares, principalmente associados à concepção dos espaços (estrutura, disposição de espaços e de equipamentos) e à organização das actividades (processo – actividade) devem ser também valorizados na complexa rede de inter-dependências e inter-relações dos sistemas também complexos, de que os hospitais (e outras unidades de saúde) são um bom exemplo. De facto, a notificação de eventos adversos permite procurar a  causalidade desses acontecimentos o que pode possibilitar a “compreensão” dos elementos que estão na sua origem e a consequente implementação de acções que visem diminuir ou eliminar  a  probabilidade da sua ocorrência.

Assim, por exemplo, aspectos das situações reais de trabalho como a saúde do trabalhador da saúde, a comunicação entre profissionais, o horário de trabalho, a carga de trabalho ou a dimensão das equipas de trabalho ou a fadiga poderão ter consequências (in)directas na prestação de cuidados de saúde. A Segurança do Doente depende pois da interacção de diversos factores relacionados, por um lado, com o doente e com a prestação de cuidados que podem envolver elementos de natureza individual (falhas activas) e organizacional (falhas latentes) e, por outro, com os referidos aspectos de natureza individual.

A perspectiva “dominante”, baseada na culpabilização individual, muito frequente em alguns modelos de gestão, é inadequada na óptica da gestão do risco e da Segurança do Doente. De facto é preciso conhecer para prevenir em vez de conhecer para culpabilizar.

Os erros são, frequentemente, “sintomas” de disfuncionamento dos sistemas de trabalho e só o seu conhecimento permite intervenções de anulação (ou redução) do seu risco de ocorrência e, nessa perspetiva, são verdadeiras “pérolas” para gerir mudança. E é essencialmente isso que se pretende, prevenir os eventos adversos evitáveis que, através de intervenções nesse “sistema”, permitem tendencialmente reduzir a zero a probabilidade da sua ocorrência.

 

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António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.
António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.

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