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Segurança e Saúde na função de motorista – Vertente psicológica e social na mobilidade terrestre

O Trabalho Humano expressa-se por um resultado esperado face a determinadas tarefas e funções em variados contextos situacionais, quer no tempo de trabalho, quer por vezes fora desse tempo, num processo de complexidade circunstancial resultante do trabalho específico da função de motorista, função essa que acarreta além do normal desgaste físico, uma carga mental cujas solicitações, fruto da evolução tecnológica e das normas progressivamente mais apertadas do espaço comunitário, impõem restrições espácio-temporais e qualificacionais.

Como acima mencionamos, a condução de determinado veículo assume-se como uma tarefa complexa, que requer permanentemente um ajustamento percetivo-motor continuo, corroborado pelo caracter dinâmico das interações estabelecidas por três elementos interativos:

  • O Condutor;
  • O veículo;
  • O contexto rodoviário e ambiente externo que o rodeia.

Tendo em vista:

  • Receber os estímulos e interpretá-los contingencialmente face ao contexto em redor;
  • Prever a evolução da situação (atitude preventiva rodoviária);
  • Antecipar as alterações corrigindo sempre que possível;
  • Avaliar as consequências das diferentes evoluções.

A condução de um veículo impõe ao motorista várias exigências, nomeadamente a visual (que é prioritária) contribuindo para que o mesmo adote posturas anti ergonómicas no sentido de estar sempre atento aos estímulos exteriores, a exigência técnica (estar permanentemente atualizado, quer a nível das regras que vão sendo alteradas, quer a nível da pequena mecânica em caso de avaria momentânea) e a exigência de gestão do tempo e da fadiga de forma a gerir o seu tempo de trabalho evitando por exemplo situações de fadiga que contribuem para o surgimento de distrações casuísticas e erros, desatenções e sonolência.

A fadiga reduz indubitavelmente o estado de alerta contribuindo para a diminuição da concentração, da perceção sensorial e da capacidade de julgamento ou de memória imediata. Em última instância pode também provocar sonolência involuntária e consequentemente aumentar a predisposição para o acidente. Mais, na origem da fadiga estão normalmente associados fatores como a falta de sono, a monotonia, a desregulação biológica, o excesso de atividade física ou intelectual, a deficiente nutrição (excesso ou por defeito), a descompensação física ou estados de morbilidade do condutor.

Podemos afirmar que a melhor maneira de dimensionarmos mentalmente e fisiologicamente sinais de fadiga e de sonolência é estarmos atentos a esses indicadores, procurando conhecermos o melhor possível as nossas capacidades físicas e mentais.

Por vezes o senso comum dita estratégias de mitigação de estádios de sonolência e fadiga com recurso a comportamento aditivos como o café ou a nicotina. Mas claramente esses métodos não estão cientificamente provados e tornam-se em inúmeras vezes ineficazes. Apenas o repouso e/ou o roulement contempla essa necessidade.

As principais (não exaustivamente) causas humanas da sinistralidade na função de condutor são:

  • Não reconhecer os primeiros sinais de alerta de cansaço/fadiga rodoviária;
  • Dificuldade em se concentrar, muitas vezes resultante da fadiga, de problemas exógenos em que o condutor se “desliga” da sua função;
  • A nível da sua memória sente a curto prazo “esquecimentos” sobre por exemplo a quilometragem que já efetuou;
  • Provocar inconscientemente desvios de trajetória, ultrapassando as linhas ou as bandas sonoras;
  • Não respeitar as distâncias entre veículos;
  • O uso negligente do telemóvel;
  • Não beber bebidas com álcool;
  • Fumar enquanto conduz provocando desatenções várias;
  • Prática da condução após um almoço com excesso de comida;
  • Encontrar-se num dia “menos bom” com alterações do seu estado emocional: irritação, impaciência, etc.

E, estas causas provocam riscos para a saúde (física, psicológica e social) de quem diariamente conduz horas e horas:

  • Posturas rígidas de estar grande período temporal a conduzir, sujeitando o motorista a uma rigidez muscular com potenciais implicações na circulação sanguínea e dores músculo esqueléticas;
  • Carga mental acentuada, pois hoje conduzir é manifestamente diferente do passado, muita pressão de contexto rodoviário e de tempo, originando situações de stress;
  • Condicionalismos sociais e familiares fruto das alterações cronobiológicas provocadas pelo trabalho por turnos, noturno e isolado;
  • Manipulação de cargas (nomeadamente nos motoristas de transporte de materiais) cujas posturas são agravadas com o uso e abuso de levantamento e transporte manual de cargas (lombalgias, dorsalgias e cervicalgias);
  • Exposição a condições de ruído, de vibrações e de ambiente térmico acentuado que provoca desconforto, dor e potenciais doenças profissionais;
  • Exposição prolongada a radiações solares (ultra violeta A e B) que condicionam o estado da pele dos motoristas, nomeadamente o antebraço, braço e o rosto;
  • Outros problemas inerentes aos motoristas de transporte de mercadorias e produtos químicos, são os riscos por contaminação biológica, pois muitos desses produtos são transnacionais e desconhecem-se as suas origens, concentrações, ausência de fichas técnicas na língua do Estado Membro de destino, etc.

 

A ingestão de uma refeição ligeira e de uma bebida revigorante, não alcoólica, são elementos que também poderão contribuir para o necessário restabelecimento do condutor. Existem mitos como o de ouvir a música lata, o de colocar o ar condicionado no frio ou de estar a conversar com outro colega, porém, não há indicações científicas que tais supostas estratégias sejam eficazes.

Por tudo isto e muito mais, devemos nesta área estratégica da mobilidade, apostar cada vez mais na PREVENÇÃO com hábitos saudáveis de vida (que todos conhecemos) como evitar o álcool, o tabaco, os fármacos, sem aconselhamento do médico, e frequentar continuamente as ações de reciclagem no âmbito da função de motorista, a frequência das ações de medicina preventiva (aptidão médica) e gerir o seu tempo de trabalho e familiar procurando criar uma harmonização equilibrada cujo contributo motivacional oferece níveis de satisfação e de entrega ao trabalho acentuados com menores probabilidades de incidentes e acidentes laborais (entenda-se também, rodoviários). E repousar sempre que necessário!

* A.Costa Tavares

Técnico Superior de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho

Formador, docente e consultor em matéria de SST

Quadro superior da Câmara Municipal de Cascais – Portugal

 

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António Costa Tavares

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Quadro superior da Câmara Municipal de Cascais – formador e docente do ensino superior
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