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Stress, o “inimigo” da produtividade de uma indústria de excelência

A industria Aeronáutica é uma industria de excelência que movimenta muitos milhões de euros e que emprega mais de 600 mil trabalhadores altamente qualificados, envolvendo uma vasta rede de PME e fornecedores (Portugal Global, 2010). Trata-se de uma industria onde o trabalho é realizado por turnos, monótono, que requer autonomia do trabalhador para a realização das tarefas que lhe são propostas, onde as relações interpessoais entre chefias e os restantes trabalhadores podem ser complexas, o receio permanente de perder o emprego e aproximar o término do contrato, são fatores que podem desencadear stress. O stress hoje em dia é considerado um problema social e de saúde pública, sendo este o principal responsável pela diminuição da qualidade de vida e da produtividade, passando a ser uma prioridade a prevenção do stress no trabalho.

Este trabalho tem como finalidade chamar a atenção para as principais causas e manifestações desencadeadas por este, bem como alertar para algumas consequências provocadas pelo stress, tanto a nível intelectual, organizacional e nas relações pessoais. O stress pode ter consequências com custos elevadíssimos para as organizações, trata-se por isso de um “inimigo”, que a industria aeronáutica tem de controlar.

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1. A industria Aeronáutica em Portugal

A industria Aeronáutica em Portugal tem vindo a crescer nos últimos anos. Na tabela que se segue encontram-se as principais empresas em Portugal ligadas ao sector da Aeronáutica.

Tabela 1: Algumas empresas de Aeronáutica Portuguesas

quadro1

 

(Adaptado de: www.wikipedia.pt)

Dentro da Industria Aeronáutica existem várias tarefas que estão associadas à manutenção e produção de aeronaves, tarefas que envolvem um trabalho em equipa, entre as quais se destacam a pintura, a montagem e a desmontagem de motores, limpeza da aeronave, selagem, rebitagem, entre outras. Existe por isso, a necessidade de serem definidos objetivos, planos de trabalho, responsabilidade de cada membro e resultados pretendidos. O que implica que cada trabalhador tenha a percepção que o sucesso de um elemento do grupo significa o sucesso de todos e o insucesso de um elemento pode ser o fracasso da equipa. Fracasso este que pode trazer consequências para a organização. Tornando-se por isso indispensável para a obtenção do sucesso da organização o bem-estar físico e psicológico dos trabalhadores.

Segundo um inquérito da EU-OSHA realizado a 49320 empresas de 36 países, em todos os sectores, no Verão/outono de 2014, sobre novos riscos, chegou-se à conclusão que existe um aumento de riscos psicossociais nos últimos anos. Sendo a Indústria Aeronáutica um sector, que tem vindo a crescer em Portugal, como se pode constatar na tabela 1, é necessário começar desde cedo a implementar nas organizações novas formas de prevenção, para um dos riscos psicossociais que tem vindo a aumentar na população laboral, o stress, de forma e evitar as consequências provocadas por este.

O objetivo do presente trabalho visa alertar para as consequências provocadas pelo stress, numa organização de excelência como a industria aeronáutica, bem como a importância da sua identificação e monitorização.

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2. Stress

O termo stress resulta de dois termos latino “Stringere” que significa esticar ou deformar e de “strictus” que corresponde às palavras portuguesas “esticado”, “tenso” ou “apertado”. (Sacadura et al, 2007).

O “stress profissional” ou o “stress ocupacional” são expressões utilizadas para descrever o stress relacionado com o trabalho. Alguns autores definem-no como sendo consequência de um desequilibro entre as exigências do trabalho e as capacidades do trabalhador. Segundo o inquérito EU-OSHA, o stress ocupa o segundo lugar no que se refere a problemas de saúde mais frequentes relacionados com o trabalho, afectando 20% dos trabalhadores da União Europeia.

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2.1 Causas

São várias as causas capazes de conduzir ao stress. Estando algumas delas relacionadas com o próprio trabalho, desde o número de horas de trabalho, as tarefas serem desgastantes, o mesmo ser realizado por turnos, as pessoas terem dois empregos, a pressão que a entidade patronal exerce para o cumprimento de prazos, são algumas causas apontadas por diversos autores (Sacadura, 2007); (Menegon, 2011); (Tavares, 2005).

Num estudo realizado a uma organização de produção de montagem de aeronaves, o autor do estudo identificou várias causas que podem desencadear stress, estando algumas delas relacionadas com o tipo de tarefas desenvolvida, provocando assim sobrecarga aos trabalhadores (Menegon, 2011). Sabendo que o sector produtivo é rico em tarefas monótonas, repetitivas e que exigem um determinado grau de autonomia por parte do trabalhador, faz do sector de produção e manutenção aeronáutica, um sector potencial de desenvolvimento de stress nos trabalhadores.

Segundo (Sacadura, 2007), as ocorrências do dia-a-dia, como por exemplo a morte de um familiar ou amigo próximo, o divórcio, a mudança da condição financeira, as relações interpessoais no grupo de trabalhadores e chefias, o facto de o trabalhador poder ser vítima de assédio ou mesmo de discriminação, o suporte social, factores humanos, a competitividade por vezes criada dentro da própria organização, o medo de perder o emprego, o não reconhecimento do seu trabalho são referenciadas como as principais causas do stress. A própria dimensão da organização, bem como o impacto e influência na sociedade que a industria Aeronáutica possui, pode ser considerada um sector de excelência, onde prima o rigor, a responsabilidade e o desempenho dos trabalhadores, são outras das causas apontadas para o desenvolvimento de stress. Num estudo realizado ao risco de stress em trabalhadores do sector produtivo da região de Lisboa, constatou-se que 14,7% os trabalhadores apresentam um risco elevado de stress e que 37.6% dos inquiridos apresentam necessidade de reduzir o stress a que estavam sujeitos (Tavares, 2005).

Ora, sendo o sector aeronáutico um sector em expansão em Portugal e o stress um risco psicossocial, que já ocupa o segundo lugar no que se refere à frequência de problemas de saúde, com base no inquérito realizado pela EU-OSHA em 2014, é necessário identificar e prevenir de forma a minimizar as consequências que este “inimigo” pode trazer a esta indústria e excelência.

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2.2 Manifestações

O stress pode alterar a forma como a pessoa sente, pensa e se comporta. As manifestações de stress ocupacional podem ser traduzidas em reacções emocionais, comportamentais, cognitivas e fisiológicas, sendo os principais sintomas apresentados no esquema da Figura 1.

quadro2Fig.1 – Principais reacções e sintomas manifestados pelo stress (adaptado de http://osha.europa.eu)

Num estudo realizado a uma empresa do sector de produção e manutenção aeronáutica, o autor (Varela, 2014), mencionou que o nível de fadiga dos trabalhadores da empresa se encontra num nível médio, sabendo-se que quanto maior o nível de fadiga menor o índice de capacidade de trabalho, tornando-se necessário identificar a sua causa, ara diminuir este sintoma e evitar o esgotamento do trabalhador (Sacadura, 2007).

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2.3 Identificação

A identificação e a medição de stress, trata-se de um processo bastante complexo e difícil, não devendo ser medido isoladamente, deve existir uma estratégia que permite cruzar os dados qualitativos de diferentes fontes com dados quantitativos (Sacadura, 2007).

A aplicação desta estratégia implica a recolha de dados, recorrendo ao uso se stressores, a identificação de algumas alterações no comportamento do trabalhador, fisiologia ou situação de saúde relacionada com esta experiência, bem como se o trabalhador já a manifestou anteriormente.

Para se conseguir recolher os dados anteriores, é necessário caracterizar o ambiente de trabalho, identificar algumas reacções do trabalhador em contexto de trabalho, tais como reacções comportamentais, fisiológicas ou sintomas físicos e a realização de um inquérito para a avaliação da percepção do trabalhador.

Segundo (Sacadura, 2007), existem alguns padrões comportamentais que se verificam com alguma regularidade e que indicam a existência de stress. O aumento do nervosismo é um exemplo, neste caso as pessoas manifestam uma maior dificuldade em se concentrar, parecendo mais distraídas, facto que não pode ocorrer no sector aeronáutico, visto se tratar de uma área onde o erro pode custar alguns milhares de euros e qualquer distração pode provocar atrasos na produção e manutenção da aeronave.

O aumento do maior número de discussões, conflito e uma menor cooperação e colaboração, devido a um aumento da dificuldade interpessoal, são comportamentos a evitar na Indústria Aeronaútica, onde o trabalho é realizado por turnos e em cadeia e este tipo de conflitos pode colocar em causa o rendimento, produtividade e o aumento dos lucros da organização.

A diminuição do desempenho, que conduz a um aumento da falta de cuidado, maior número de esquecimentos, ocorrência de erros e ainda uma menor capacidade de tomar decisões são indicadores que alo não está bem no seio da organização. É de referir que estes são determinantes não só para o sucesso do trabalhador, mas também para o sucesso da organização, podendo colocar em causa prazos de entrega, bem como a garantia dos padrões de qualidade e excelência exigidos no Sector Aeronáutico e ainda pode provocar um aumento dos acidentes de trabalho.

Outro comportamento que se verifica é o aumento do abuso de substâncias. As pessoas passam a beber e a fumar mais, em alguns casos pode ocorrer o aumento do consumo do café e ainda o aumento do tempo de almoço (Sacadura, 2007).

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2.4 Formas de minimizar o stress

Para minimizar o stress, as organizações podem realizar intervenções, com a finalidade de diminuir ou eliminar as fontes de stress do ambiente de trabalho e diminuir as pressões colocadas aos trabalhadores. Para tal, pode aumentar a satisfação das necessidades dos trabalhadores, alterar o ambiente físico, optimizar as condições de trabalho e implementar as pausas de trabalho de forma a promover o descanso e o convívio de trabalhadores.

Fazer intervenções direccionadas aos trabalhadores e estas podem ser individuais ou em grupo, estas destinam-se a minimizar o impacto dos stressores organizacionais e podem consistir em actividades físicas semanais ou regulares e ainda no desenvolvimento de capacidade de gestão de tempo ou na resolução de conflitos.

Nas situações mais graves deve-se realizar intervenções numa perspectiva de “tratamento” e não de prevenção, destinando-se estas a indivíduos com problemas de saúde e de bem-estar, provocados pelo stress ocupacional (Sacadura, 2007).

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3. Possíveis impactos na indústria aeronáutica

Na maioria dos casos, o stress trata-se de uma situação rápida, podendo-se tornar crónico, acabando por influenciar o estado físico, comportamental, psicológico e a saúde do individuo. Existem várias doenças que estão associadas ao stress, tais como doenças cardíacas e hipertensão. O stress torna-se negativo, quando este é demasiado excessivo, frequente e duradouro.

Sabendo que o stress provoca uma diminuição do desempenho do trabalhador e que as tarefas na Industria Aeronáutica são de extrema responsabilidade e importância, como por exemplo a tarefa do Técnico de Ensaios Não-Destrutivos. Ora, um técnico deste sector que se encontre sob stress facilmente pode deixar na aeronave, pode colocar em causa a integridade da aeronave e em risco de vida os seus ocupantes. O técnico que emitiu o relatório pode ainda ser responsabilizado disciplinarmente e criminalmente, devido à falha que cometeu.

Quando se fala em falhas humanas, estas podem ter várias origens. Algumas delas podem resultar devido ao stress do trabalhador. Pelo que é importante o Técnico Superior de SHT e a organização, identificarem e monitorizarem o stress ocupacional.

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4. Papel do Técnico Superior de SHT

O Técnico Superior de SHT deve assegurar a eficácia da implementação de intervenção de gestão do stress ocupacional. Para tal tem de planear periodicamente o diagnóstico, a intervenção e a avaliação dentro da organização. A fase de diagnóstico consiste em averiguar quais as principais causas e factores mediadores. O diagnóstico pode ser realizado recorrendo a questionários, a entrevistas, a observação e a indicadores de objetivos, tais como: o absentismo, a taxa de diagnóstico, devendo-se considerar a relação que existe entre o individuo e o ambiente.

A avaliação deve verificar se os objectivos pretendidos foram alcançados.

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5. Conclusão

São várias as causas do stress ocupacional, podendo estas ser encontradas num grande número de organizações nos dias que correm. Entre as causas, destacam-se o excesso de produtividade exigido aos trabalhadores por parte das organizações, medo de perda do emprego, horários irregulares que provocam a falta de articulação da vida pessoal e profissional, entre outras.

Existem várias consequências provocadas pelo stress, que vão desde factores físicos, psíquicos e comportamentais. Estes provocam várias consequências a nível das organizações, nomeadamente a perda da produtividade, o aumento da taxa de erros e acidentes de trabalho, bem como uma menor flexibilidade para responder atempadamente aos desafios do meio externo.

Com a realização de uma avaliação periódica dos níveis de stress dos trabalhadores, é possível prevenir e melhorar a qualidade de via no seio da organização, bem como na performance dos trabalhadores. Sendo que no caso do sector da Industria Aeronáutica, o stress pode significar a perda de largos milhares de euros e até de vidas humanas.

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6. Referências

  • Menegon, F. (2001), Atividade de montagem estrutural de aeronaves e factores associados à capacidade para o trabalho e fadiga, FSP, Universidade de São Paulo.
  • Sacadura-Leite E. et al (2007), Stress relacionado com o trabalho, Revista Saúde & Trabalho.
  • Tavares, A.S.R. (2005), Comportamentos de Risco e stress em trabalhadores do sector produtivo, Revista Portuguesa de Saúde Pública.
  • Varelas, P.A.G (2014), Análise Ergonómica na industria aeronáutica: análise comparativa da capacidade de trabalho e dos factores psicossociais em vários sectores em função dos determinantes ocupacionais, FMH, Lisboa
  • http://www.portugalglobal.pt/PT/PortugalNews/EdicaoAicepPortugalGlobal/Documents/Separata280510.pdf
  • http://osha.europa.eu (16-06-2016)

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Carla Proença

Licenciada em Química pela FCUL, Mestre em Química Analítica Aplicada pela FCUL e Técnica Superior de Segurança no Trabalho. Actualmente é Formadora.

Carla Proença

Licenciada em Química pela FCUL, Mestre em Química Analítica Aplicada pela FCUL e Técnica Superior de Segurança no Trabalho. Actualmente é Formadora.

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