Higiene nos manipuladores de alimentos

Higiene dos manipuladores de alimentos: as regras que não podem falhar

Numa cozinha, num talho, numa pastelaria ou numa unidade de produção alimentar, há um fator que influencia diretamente a segurança de tudo o que é produzido: as pessoas que manipulam os alimentos.

Equipamentos modernos, instalações adequadas e um plano HACCP bem estruturado são fundamentais. Mas, se a higiene de quem manipula os alimentos falhar, todo o sistema fica comprometido. As mãos, o fardamento, o estado de saúde e os comportamentos do dia a dia podem ser a origem — ou a barreira — de uma contaminação.

Porque é a higiene pessoal tão importante?

O corpo humano é, naturalmente, portador de microrganismos. Muitos encontram-se nas mãos, no nariz, na boca, no cabelo e na pele. Em condições normais, não representam um problema para a própria pessoa, mas podem ser transferidos para os alimentos e provocar doenças em quem os consome.

O Regulamento (CE) n.º 852/2004, relativo à higiene dos géneros alimentícios, estabelece que todas as pessoas que trabalham em locais onde se manuseiam alimentos devem manter um elevado grau de higiene pessoal, usar vestuário adequado e limpo e receber formação compatível com as suas funções.

As mãos: o principal veículo de contaminação

As mãos estão em contacto permanente com alimentos, superfícies, utensílios, dinheiro, telemóveis e o próprio corpo. Por isso, são o principal meio de transmissão de microrganismos para os alimentos.

Quando lavar as mãos

  • Ao iniciar o trabalho e após cada pausa
  • Depois de utilizar as instalações sanitárias
  • Depois de manusear alimentos crus, como carne, peixe, ovos ou vegetais por lavar
  • Antes de manusear alimentos prontos a consumir
  • Depois de tossir, espirrar ou assoar o nariz
  • Depois de tocar no cabelo, na cara ou no telemóvel
  • Depois de manusear lixo, produtos de limpeza ou embalagens
  • Sempre que as mãos estejam visivelmente sujas

Como lavar corretamente

Uma lavagem eficaz deve incluir:

  • Molhar as mãos com água corrente
  • Aplicar sabão líquido
  • Esfregar todas as zonas — palmas, dorso, entre os dedos, polegares, pontas dos dedos e unhas — durante, pelo menos, 20 segundos
  • Passar bem por água
  • Secar com toalhetes de papel descartáveis

Os lavatórios destinados à lavagem das mãos devem ser exclusivos para esse fim e, idealmente, ter torneiras de comando não manual.

E as luvas?

As luvas não substituem a lavagem das mãos. Quando mal utilizadas, podem até aumentar o risco, transmitindo uma falsa sensação de segurança. Devem ser trocadas com frequência, sempre que se muda de tarefa ou quando estão danificadas — e as mãos devem ser lavadas antes de as calçar.

Fardamento e apresentação pessoal

O vestuário de trabalho tem como principal função proteger os alimentos da contaminação proveniente do trabalhador e da sua roupa pessoal.

As regras essenciais incluem:

  • Utilizar fardamento limpo, de cor clara e exclusivo para o trabalho
  • Trocar o fardamento sempre que necessário e, no mínimo, diariamente
  • Não circular com o fardamento fora das instalações
  • Usar touca ou outra proteção que cubra totalmente o cabelo
  • Proteger a barba, quando aplicável
  • Utilizar calçado próprio, fechado e antiderrapante
  • Guardar a roupa pessoal em vestiários, separada da área de trabalho

Adornos e unhas

Anéis, pulseiras, relógios, brincos e piercings visíveis devem ser retirados. Acumulam sujidade, dificultam a lavagem das mãos e podem cair nos alimentos.

As unhas devem estar curtas, limpas e sem verniz ou unhas de gel, que podem lascar e acabar no produto.

Estado de saúde: quando não se deve manipular alimentos

Este é um dos pontos mais sensíveis — e mais frequentemente desvalorizados. Um trabalhador que sofra de uma doença suscetível de ser transmitida através dos alimentos não deve manipulá-los.

Devem ser comunicadas de imediato ao responsável situações como:

  • Diarreia e/ou vómitos
  • Febre acompanhada de outros sintomas
  • Feridas ou infeções na pele, sobretudo nas mãos e nos braços
  • Infeções nos olhos, nos ouvidos ou no nariz com corrimento

Nestes casos, cabe ao responsável avaliar a situação e, se necessário, afastar o trabalhador da manipulação de alimentos até à sua recuperação.

Pequenos cortes ou feridas nas mãos devem ser protegidos com pensos impermeáveis, de preferência de cor viva (como o azul), para serem facilmente detetados caso caiam nos alimentos, e cobertos com luvas.

Para que este sistema funcione, os trabalhadores devem sentir-se à vontade para comunicar o seu estado de saúde, sem receio de consequências.

Comportamentos a evitar na zona de trabalho

Alguns hábitos, aparentemente inofensivos, representam riscos reais:

  • Comer, beber ou mascar pastilha elástica na zona de preparação
  • Fumar ou utilizar cigarros eletrónicos
  • Tossir ou espirrar sobre os alimentos
  • Provar alimentos com os dedos ou reutilizar a mesma colher
  • Tocar no cabelo, no nariz ou na boca durante o trabalho
  • Utilizar o telemóvel durante a manipulação de alimentos
  • Limpar as mãos ao avental ou ao fardamento

Formação: transformar regras em hábitos

As regras só funcionam se forem conhecidas, compreendidas e aplicadas. A formação dos manipuladores de alimentos é uma obrigação legal e deve ser adequada às funções de cada colaborador.

Mais do que uma sessão pontual, é importante:

  • Realizar formação no acolhimento de novos colaboradores
  • Promover ações de reciclagem periódicas
  • Afixar instruções visuais junto aos lavatórios e nas zonas de trabalho
  • Verificar o cumprimento das regras no terreno e corrigir comportamentos de forma pedagógica

O exemplo das chefias é, também aqui, determinante. Regras que não são cumpridas por quem lidera dificilmente serão levadas a sério pelas equipas.

A segurança alimentar começa nas pessoas

Os manipuladores de alimentos são a primeira linha de defesa da segurança alimentar. Gestos simples — lavar as mãos, usar fardamento limpo, comunicar uma doença — evitam contaminações e protegem a saúde dos consumidores.

Rigor na higiene pessoal não é excesso de zelo. É a garantia de que cada alimento que sai da cozinha chega ao consumidor em segurança.

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