Quando se pensa em segurança no trabalho, a imagem que surge é, quase sempre, a de uma fábrica, de uma obra ou de um armazém. Raramente se pensa num carro. No entanto, para muitos profissionais — comerciais, técnicos de assistência, motoristas, estafetas, equipas de manutenção — a estrada é o principal local de trabalho.
E é também um dos mais perigosos. Os acidentes rodoviários estão entre as principais causas de acidentes de trabalho mortais, mas continuam a ser encarados por muitas empresas como um risco “externo”, fora do seu controlo. Não são.
Porque é o risco rodoviário um risco profissional?
Sempre que um colaborador conduz por motivos de trabalho, essa deslocação faz parte da sua atividade profissional. Isto aplica-se a quem conduz um veículo da empresa, mas também a quem utiliza o seu próprio carro ao serviço da organização.
Do ponto de vista legal, um acidente ocorrido durante uma deslocação em serviço é considerado acidente de trabalho. O mesmo acontece, em determinadas condições, com os acidentes no trajeto entre a casa e o local de trabalho.
Por isso, o risco rodoviário deve ser identificado, avaliado e gerido como qualquer outro risco profissional — e estar contemplado na avaliação de riscos da empresa.
Os principais fatores de risco
Os acidentes na estrada resultam, quase sempre, da combinação de vários fatores. Os mais frequentes no contexto profissional são:
- Fadiga: longas horas ao volante, deslocações no início ou no fim de jornadas extensas, falta de descanso.
- Pressão de tempo: agendas apertadas, prazos de entrega ou várias visitas no mesmo dia levam a excesso de velocidade e decisões arriscadas.
- Distração: o telemóvel é o principal exemplo — chamadas, mensagens, e-mails ou o GPS manuseado em andamento.
- Estado do veículo: pneus gastos, travões em mau estado ou falta de manutenção.
- Condições meteorológicas: chuva, nevoeiro e piso escorregadio, sobretudo nos meses de inverno.
- Carga mal acondicionada: objetos soltos no habitáculo ou na caixa de carga podem tornar-se projéteis numa travagem brusca.
O que pode a empresa fazer?
A empresa não controla o trânsito nem o comportamento dos outros condutores. Mas controla muitos dos fatores que aumentam o risco.
Organizar o trabalho de forma realista
Grande parte do risco rodoviário nasce na forma como o trabalho é planeado. Agendas que só são cumpridas a conduzir depressa estão, na prática, a incentivar comportamentos perigosos.
Algumas medidas simples:
- Planear deslocações com tempos realistas, incluindo margem para imprevistos
- Prever pausas regulares em viagens longas
- Evitar conduções longas após turnos extensos ou noturnos
- Ponderar alternativas, como reuniões à distância ou transportes públicos, quando a deslocação não é essencial
Definir regras claras sobre o telemóvel
Uma política interna clara ajuda a eliminar a pressão para atender chamadas ao volante. Por exemplo:
- Não é esperado que o colaborador responda enquanto conduz
- As chamadas devem ser feitas durante as paragens
- O GPS deve ser programado antes de iniciar a viagem
Mais importante do que a regra é o exemplo das chefias: quem liga a um colaborador sabendo que este está a conduzir e espera uma resposta imediata está a contrariar a política.
Garantir a manutenção dos veículos
Os veículos da empresa devem ter um plano de manutenção definido e cumprido. Antes de iniciar a utilização, é útil uma verificação rápida de pneus, luzes, travões e níveis.
Quando os colaboradores usam viaturas próprias ao serviço, a empresa deve também sensibilizá-los para a importância da manutenção.
Equipar e acondicionar corretamente
Os veículos devem ter o equipamento de segurança obrigatório e, sempre que transportem materiais, sistemas adequados de fixação de carga. Nunca devem ser transportados objetos soltos no habitáculo.
Apostar na formação
A formação em condução defensiva e a sensibilização para os riscos rodoviários ajudam os colaboradores a antecipar perigos e a reagir melhor a situações inesperadas. Temas como a fadiga, a gestão do tempo e a condução em condições adversas devem fazer parte destas ações.
Registar e aprender com os incidentes
Pequenos toques, quase-acidentes, multas por excesso de velocidade ou avarias recorrentes são sinais que merecem atenção. Registá-los e analisá-los permite identificar padrões — determinados percursos, horários, equipas ou veículos — e agir antes que aconteça algo mais grave.
Os trajetos casa-trabalho também contam
Mesmo os colaboradores que não conduzem em serviço fazem, todos os dias, o percurso entre casa e o local de trabalho. Horários de entrada e saída muito rígidos, turnos noturnos ou jornadas prolongadas aumentam a fadiga e o risco nesse trajeto.
Campanhas de sensibilização, flexibilidade de horários e incentivo a meios de transporte mais seguros são formas simples de a empresa contribuir para reduzir este risco.
Segurança que continua para lá das portas da empresa
O risco rodoviário não desaparece quando o colaborador sai das instalações. Pelo contrário: para muitos profissionais, é aí que começa.
Integrar a estrada na estratégia de segurança no trabalho é reconhecer uma realidade simples — chegar a casa em segurança, no fim de cada dia, também faz parte do trabalho.