O que entendemos por stress ocupacional?

Como surge o stress ocupacional?

Como é do conhecimento geral, passamos grande parte da nossa vida ativa no local de trabalho. Como corolário dessa “permanência” estamos expostos a um sem número de solicitações, de exigências e de interações interpluridisciplinares que podem consubstanciar-se em riscos psicossociais percecionadas pelos trabalhadores como desfavoráveis e desconfortáveis.

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Bem então o que é o stress:

Em termos lacto-senso diríamos que é uma reação do nosso organismo, contra agentes externos (físicos, emocionais, fisiológicos e mentais) face a uma determinada situação que das duas uma: ou lhe é adversa e estamos perante uma situação de stress negativo (situação de pressão, uma carga de trabalho insuportável, uma exigência inatingível, uma situação de violência laboral entre outras) ou uma situação de felicidade instantânea (uma promoção, uma conquista) sendo neste caso considerado como stress positivo.

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E o stress ocupacional?

Como atrás referimos é um misto das duas situações não obstante ser quase sempre caracterizado como uma situação adversa em consequência da exposição a riscos psicossociais cujas respostas às exigências do trabalho ficam aquém das capacidades psicológicas, emocionais e físicas dos trabalhadores.

Entre as causas mais comuns, destacaríamos as que consideramos mais relevantes:

  • O trabalho monótono e desprestigiante que, na consideração do indivíduo, não é percecionado como algo que melhore a sua competência, seja técnica, seja relacional perante a equipa e a sua organização;
  • A falta de organização do seu trabalho com a sensação de que não trás mais valor para os desígnios da equipa e/ou da organização onde trabalha;
  • A carga exagerada de tarefas e/ou de complexidade extrema, que lhe provoca ruído mental, ansiedade e consequentemente baixa de autoestima;
  •  Prazos que condicionam a execução de determinado trabalho dentro dos limites considerados como razoáveis;
  • Pressão manifestada sob a forma reiterada de “urgente”;
  • Assédio moral com base em preconceitos, religião, raça, ideologia ou militância política;
  • Falta de condições mínimas de dignidade em matéria de segurança e saúde no local de trabalho (falta de ergonomia por exemplo), condicionado a sua estrutura física e anatomofisiológica;
  • Problemas a nível do relacionamento interpessoal (considerado tóxico) originando situações de competitividade entre colegas, conflitualidade, frustrações, intimidações, sabotagens, etc.;
  • Ausência de formação e desenvolvimento profissional para melhorar as suas competências;
  • Ausência de autonomia e consideração por parte dos superiores hierárquicos;
  • Incidentes, acidentes e doenças adquiridas no local de trabalho com todas a implicações a nível de custos humanos, sociais, familiares e económicos.

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Consequências para o trabalhador:

A nível mental podemos referir algumas manifestações como consequência (nefasta) do stress ocupacional:

  1. Ansiedade que vai interferir com a nossa vida laboral, social e familiar;
  2. Situações de revolta e desvinculação emocional para com os colegas, equipas e organização onde trabalha;
  3. Ausência de iniciativa e proatividade em propor ideias, melhorias, criatividade e inovação;
  4. Surgimento de comportamentos aditivos (tabagismo, jogo, alcoolismo, toxicodependências, etc.).

A nível fisiológico:

  • Surgimento de manifestações somáticas (stress vai diminuir a capacidade de resistência imunitária do organismo) como úlceras nervosas, problemas intestinais, problemas cardiovasculares (tensão alta por exemplo) e outras doenças psicóticas.

A nível emocional:

  • Comportamentos violentos, descompensações, isolamento, tentativa de suicídio, desequilíbrios sociofamiliares, etc..

Quando falamos nesta dimensão do stress, podemos enumerar 3 fases interdependentes cuja fronteira é ténue:

1ª Fase: – fase de alarme: nesta primeira fase o nosso organismo percecionando algo que o vai “incomodar” despoleta um mecanismo de alerta como forma de proteção desse “eventual” perigo, podendo estabelecer estratégias de confrontação ou de fuga. Para tal desenvolve determinadas reações como um aumento do fluxo sanguíneo (adrenalina), aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, um aumento de oxigenação em todo o organismo e aumento da produção de glicose (energia) para usufruto do sistema musculosquelético (aumento da tensão muscular).

Após o trabalhador reequilibrar essa relação entre exigência e resposta, o organismo volta para um quadro de equilíbrio (homeostase).

No caso de esta situação não se reequilibrar vamos entrar numa outra fase cujos sintomas são mais gravosos.

2ª Fase – fase de resistência: nesta fase acentua-se o desgaste entrando já numa vertente psicossomática com implicações a nível fisiológico com o surgimento de infeções, aumento do estado de vigília, alheamento, falta de atenção, concentração e foco no trabalho podendo originar incidentes, esquecimento, seborreia, falta de apetite, problemas gastrointestinais, infertilidade, problemas menstruais, entre outros, muitos deles podendo revestir-se de irreversibilidade para o indivíduo.

3ª Fase – fase da exaustão (burnout): o sistema imunitário desce acentuadamente, os problemas que vêm da 2ª fase como a caspa, seborreia, distúrbios gastrointestinais, diarreia, gastrite, vómitos, isolamento social, recorrência a fármacos e drogas etc. aumentam consideravelmente contribuindo para a desaceleração da autoestima do indivíduo e fazendo-o crer que é alguém que não vale nada, que ninguém confia nele, que ninguém lhe dá responsabilidades entre outras ações, originando um quadro depressivo irreversível que, em último caso o poderá levar ao suicídio.

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O que se pode fazer:

Essencialmente gerir o dia-a-dia para que as situações acima referidas não cheguem à 1ª fase:

  1. Atacar a nível de sinalização e despiste precoce das situações de sofrimento e/ou vulnerabilidade psicológica/social/profissional/emocional/familiar dos trabalhadores;
  2. Gestão de situações de natureza económica, habitação, escolaridade (filhos por exemplo);
  3. Reinserção sócio laboral (decorrente de AT e/ou internamento hospitalares);
  4. Gestão de doenças prolongadas ou incapacitantes;
  5. Encaminhamento de situações de alcoolismo, toxicodependência (extensível a familiares);
  6. Gestão de situações a nível do foro familiar (tóxicos, delinquência, desemprego, conflito, etc.) e encaminhamento para creches e lares;
  7. Gestão de situações de conflitualidade (intra e interpessoal);
  8. Situações de desadaptação e conflitos laborais e ajuda na mobilidade para outo local de trabalho com outras funções e com outros colegas/chefias);
  9. Identificação de situações de inadaptação ao posto de trabalho e propostas de ações de formação e aprendizagem para melhorar o desempenho;
  10. Promover encontros fora da organização como forma de coesão (caminhadas, jogos, visitas lúdico-culturais, etc.);
  11. Incentivar os trabalhadores a estudarem e assim poderem vir a ocupar cargos mais aliciantes com pressuposto de melhorar a sua vida pessoal e familiar;
  12. Promoção de visitas interdisciplinares aos locais de trabalho (técnicos de SST, psicólogos, assistentes sociais, médicos do trabalho) para elaboração de check-ups sobre inconformidades relatadas/detetadas;
  13.  E muito mais, assim haja orçamento, vontade das partes (ajudar e querer ser ajudado…).

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Tudo o que aqui abordamos efetivamente só faz sentido numa intervenção sistémica e interpluridisciplinar envolvendo TODOS com TODOS e para TODOS!!!

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António Costa Tavares

António Costa Tavares

Técnico Superior de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho Docente, formador e consultor em matéria de SST e Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho Quadro da Câmara Municipal de Cascais Membro da Comissão de Trabalhadores da CMC

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