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Comportamentos Seguros no Local de Trabalho – que fatores influenciadores?

Quando abordamos a questão da sinistralidade nos locais de trabalho temos que ter em atenção que a mesma resulta, na sua grande maioria, de uma teia complexa e pluricausal alicerçada em dois binómios interdependentes: os fenómenos de origem material (hard) e os fenómenos de origem humana (soft).

Ao caracterizarmos os atos inseguros estamos indubitavelmente a falar do denominado erro humano, esfera subjetiva de difícil análise por parte dos investigadores de acidentes de trabalho. Porém devemos ter a sensibilidade de não colocar ênfase (como muitos técnicos de SST o fazem para de desonerarem e se demitirem das suas responsabilidades), numa perspetiva de culpa do trabalhador, mas sim tentar sempre que possível colocar a questão numa perspetiva de falha do sistema que reflete disfunções a nível da organização, como a falta de formação, a falta de supervisão, a falta de informação técnica, falta de organização do trabalho, falha de orientação das tarefas, falta de comunicação, falta de planeamento, enfim, uma série de “faltas” que importa refletir, diagnosticar, alterar e melhorar em função da modificação de atitudes e comportamentos expectáveis futuros dos trabalhadores.

Claro que temos sempre que contar com a imprevisibilidade típica da ação humana, ela própria imprevisível desde a fase de nascimento, passando pela adolescência e permanecendo na vida adulta. O conceito de culpa acompanha-nos sempre, devendo progressivamente (e principalmente a nível ocupacional) ser mitigado, controlado, minimizado diríamos, interiorizado e racionalizado de forma a que a sua frequência seja progressivamente menor.

O papel do técnico de segurança e saúde no trabalho é fundamental no acompanhamento das tarefas, pois conhecendo-as, identifica falhas e erros que pode in locu emendar, alertar e até eliminar, deixando para uma segunda fase a formação mais formal como reforço do diagnóstico anteriormente realizado.

Outros fatores a ser tidos em conta no que concerne aos índices elevados de sinistralidade no nosso país são, os fatores biológicos (maior propensão para sinistralidade nos grupos etários mais jovens onde impera ainda a imprudência, o espírito de aventura e até uma certa desresponsabilização pelo perigo como também a nível de género, uma maior prevalência para o sexo masculino onde recaem muitas atividades de risco como os setores da construção civil, da indústria mineira, metalomecânica, metalúrgica e agricultura associados ainda a uma ideia de força física e virilidade muito associada às características do sexo masculino), e os fatores socioculturais (socialização baseada numa cultura de insegurança e de ausência de perceção do risco e consequentes padrões de comportamento irracional, manifestada em indicadores de sinistralidade infantil, rodoviária e laboral cuja ausência de formação e sensibilização para estas temáticas pouco ou nada existem em meio escolar, perpetuando-se na fase adulta, com o acréscimo de que o perigo está permanentemente próximo da conduta humana e não haver condições para o enfrentar, quer a nível da proteção coletiva, quer a nível da proteção individual cujas falhas ainda são enormes, fruto da negligência de muitos empregadores que encaram a segurança e saúde como um apêndice da atividade laboral por mero cumprimento legal).

Muito há por enquanto a fazer, pese embora termos assistido a mudanças significativas se compararmos com outras décadas nesta área das condições socio laborais.

Consideramos a administração de formação profissional como uma das melhores estratégias para a adoção de comportamentos mais racionais, mais focados no desempenho, mais conscientes face aos perigos (que sempre existirão) e aos riscos a eles associados de forma a minimizar a relação trabalho – acidente.

A integração de uma cultura de segurança terá que ter sempre em conta a especificidade humana, as diferenças existentes, a história de vida de cada trabalhador, as normas e os valores que edificaram a sua herança cultural e que, influencia o desempenho dos vários papéis, não só como trabalhador, mas também como pai, mãe, filho ou cidadão. Daí sermos recetivos a uma cultura de integração em que todos estes aspetos não são compartimentados mas encarados numa visão holística da organização, trabalhada por todos, aumentado o envolvimento e a motivação e consequentemente a diminuição de atos inseguros, por um lado, mas também investindo nas condições físicas, nos equipamentos, nas instalações diminuindo as condições de insegurança que contribuem em grande parte para o surgimento do incidente e do acidente de trabalho.

Existindo este respeito mútuo entre as partes, pois estamos em última instância a falar de vidas humanas e qualidade de vida, muitos indicadores disfuncionais serão efetivamente mitigados em oposição a uma diminuição da sinistralidade e a um aumento da satisfação e melhoria psicológica, fisiológica e emocional. Afinal todos ganham, sendo esta a aposta que deve ser feita, não abruptamente sem preparação e sensibilidade das partes, mas em equipa com todos os intervenientes, pois todos sabem um pouco, e juntando os vários “poucos” temos um “muito”… É esse o caminho daqui para a frente.

Bem hajam!

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António Costa Tavares

António Costa Tavares

Técnico Superior de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho Docente, formador e consultor em matéria de SST e Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho Quadro da Câmara Municipal de Cascais Membro da Comissão de Trabalhadores da CMC

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