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+COVID-19: em cada quatro pessoas, vírus já só circula em três?

Duas semanas depois do segundo desconfinamento a taxa de incidência mantém-se entre os 60 e os 120 casos por cem mil habitantes nos últimos catorze dias (mais próximo dos 60), que corresponde a valores muito mais baixos da média da União Europeia (já que a coisa “está mais agreste” noutros países). Aí ocorre a terceira vaga que em Portugal está meio “enxertada” na segunda vaga. O índice de transmissibilidade aumenta como é esperado à medida que o número de casos se reduz.

As crianças voltaram às escolas e a Páscoa está à porta, esperando-se que não existam “derrapagens” como sucedido no Natal passado (convívio, regresso a casa do Reino Unido para passar o Natal com a família, férias… associado a uma maneira muito própria de reagir do género “depois logo se vê” tão típica da nossa forma de funcionar). A matriz de risco mantém a cor verde o que é sinónimo de algum controlo da circulação do vírus. A variante inglesa já é totalmente dominante mesmo com confinamento e, por certo, outras virão se não controlarmos, minimamente, a circulação de pessoas e se esmorecermos na sua identificação (as actuais e as que virão …) e na aplicação de medidas de controlo.

Também a imunoterapia específica vai decorrendo o que adicionado à imunidade natural se consubstancia na possibilidade, aparente, de circulação do vírus já só em três de cada quatro pessoas. Acresce a circunstância desses cerca de 25% incluir, maioritariamente, indivíduos mais vulneráveis que se repercutirá por certo em melhores indicadores e que não se esgotam apenas na letalidade. Os grupos etários mais atingidos são agora adultos jovens. Voltarão, presume-se, os casos em fábricas (ou pelo menos essa possibilidade …).

O “reverso da medalha” é que, por essa Europa fora, as pneumonias com quadros clínicos que justificam os cuidados intensivos (e também os óbitos) recentram o seu alvo em grupos etários mais baixos do que os observados no início da pandemia.

Breve, breve, a abertura será maior e cá estaremos para, caso seja necessário, reagir, espero que adequadamente. A testagem mantém uma percentagem aceitável de positividade, ainda que o número diário de testes seja muito inferior ao desejável. O desafio agora é a “floresta” de diferentes testes, nem todos com a mesma sensibilidade e a aplicação correcta das normas que, parcialmente fica em “autogestão”.

Mantém-se a grande esperança da melhoria significativa das taxas de vacinação com uma esperada retoma da disponibilidade das vacinas a que se deve acrescentar a nova vacina de aplicação apenas de uma dose que poderá abranger quase metade da população portuguesa no contracto realizado, de acordo com os media. Entretanto o tempo vai correndo e o conhecimento científico sobre a imunidade adquirida e a sua duração também vão escalando o que, por certo, nos preparará melhor num futuro próximo.

A derradeira esperança é que em face dos repiques (índice de transmissibilidade e taxa de incidência) não assistamos a hesitações em necessidades de actuação caso esses alarmes actuem (a que chamaram “linhas vermelhas”). O mais importante de tudo é, todavia, manter, pelo menos mais um semestre, todas as medidas que dificultem a circulação da partícula viral, a que alguém chamou “sermos todos agentes de Saúde Pública”.

E, concluindo, lembrarmo-nos sempre que, neste caso concreto, “a sorte não protege os audazes” e que muito do plano nacional de combate à COVOD-19 passa pela atitude e comportamentos de todos e cada um de nós … Dito de outra forma, nós todos, somos os elos mais fortes da cadeia de prevenção e combate à pandemia.

Lisboa, de 25 de março de 2021

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

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