+COVID-19: mais uma vez a vacinação e os critérios adoptados!

Num destes textos escrevia há dois meses (em 2 de fevereiro passado): “… O que se tem passado com as vacinas contra a COVID-19 é talvez um pouco bizarro. Claro que se pensarmos em critérios controláveis, esses critérios devem ser simples e escrutináveis e o melhor moldados que for possível ao conhecimento da história natural da doença. Nessa perspectiva é difícil arranjar um critério melhor do que a idade porque tem essa relação muito bem estabelecida e demonstrada, quer na gravidade da doença, quer na letalidade. E desde que existem registos civis, também está disponível numa sólida e segura base de dados nacional, perfeitamente perscrutável por quem tenha acesso a essa informação para esses fins concretos.

Mas não, os critérios, para além da idade, “fatiam”, por exemplo e entre outros, o público e o privado, os idosos por lares e fora deles, grupos profissionais diversos, actividades desempenhadas, patologias diversas, aspectos políticos (e muitos outros mais) e instala-se, pelo menos assim parece, a grande confusão. A competição da apreciação da indispensabilidade e muitos outros aspectos aguçam, sem solução tangível, apreciações variáveis da representação social dominante e eis-nos instalados em discussões estéreis “emolduradas” no chico-espertismo já bem conhecido de alguma da nossa malha social, felizmente muito minoritário ainda que, infelizmente, apenas em número relativo.

Qual o resultado? Cisões e divergências, comparações incomparáveis e até, pasme-se, aproveitamentos políticos e critérios dos critérios. Não se deveria fomentar sinergias e convergências? Será esta a melhor forma de “sermos todos agentes de Saúde Pública”? Serão estas “interpretações” distorcidas factor de coesão de todos na luta contra a pandemia? De facto, a autoridade em Democracia pressupõe, desejavelmente, confiança e disciplina que não parecem, neste contexto, ser dominantes …”.

Hoje, num noticiário televisivo da hora do almoço, oiço o coordenador do grupo de missão da vacinação, que a isso se dedica em exclusividade e com grande empenho, a referir-se ao mesmo, mas com a experiência de quem lidera essa actividade que tem, obviamente outro conhecimento e outra autoridade. Há cerca de um mês também a Ordem dos Médicos recomendava o mesmo. 

Não vivemos todos em Portugal?

Não conhecemos a “moda” de actuação de quem faz as regras, de quem as aprova, de quem as cumpre, de quem as faz cumprir e … (por aí adiante)?

Esperava-se outra coisa com uma pulverização de critérios com “aggiornamento” quase contínuo?

Não servem as acções de excepção tão frequentes na nossa comunidade para, por vezes, “contornar” os trajectos determinados? Há alguma novidade nessas formas de actuação? Qual o espanto para o que alguém denominou o fenómeno “a gorda fura filas”?

Claro que o critério idade (do mais velho para o mais novo) com, no máximo, duas ou três excepções, é transparente, simples, escrutinável, adequado ao conceito de risco e, se aplicado de forma célere, rapidamente absorve as “excepçõezinhas” em dias ou semanas. Tal, claro, num contexto em que a gestão de informação de aplicação do critério é simples e tangível por todos e qualquer um. Mas o princípio KISS interessará ou, dito de outra forma, interessarão coisas simples? … não me parece e permaneço em dúvida porque hoje é o dia das mentiras.

Entretanto a esta hora o Conselho de Ministros reúne para deliberar sobre o processo de desconfinamento … numa época de reunião familiar que se espera mais virtual que real.

Lisboa, de 01 de abril de 2021

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

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