COVID-19: quem sabe de logaritmos não sabe de doenças e vice-versa?

Pois é! Cá estamos onde, desde setembro, era previsível (e alguns isso previram), e o que se ouve, no essencial, indicia que quem sabe de logaritmos não sabe de doenças e vice-versa! E o que é espantoso é que todos são bem-intencionados, mas o resultado, no mínimo, podia ser melhor, apesar de tanto empenho de todos (muito empenho e pouca organização?). Entretanto, as redes sociais expressam coisas deploráveis (propositadamente distorcidas em várias perspectivas, para não falar nos chamados “negacionistas”) e os hospitais estão prestes a atingir o acme da organização (por vezes, improvisão) adptativa em resposta à pressão que sofrem.

A hora é de “reunião” de todos, mas, genericamente, a falta de independência paga-se cara e os distúrbios narcísicos de personalidade, na melhor das hipóteses, serão percepcionados por alguns, mas, de certeza, tarde de mais. Com cerca de duas semanas de avanço de Portugal em relação a alguns países europeus, o que valerá mais? O empirismo ou os exercícios especulativos com maior ou menor rigor? Os dois por certo, desde que com rigor!

A criação de conhecimento e a sua divulgação está ao serviço de quê? De perspectivas carreiristas ou da área científica a que se dedicam? Dito de outra forma, quem investiga está ao serviço da respectiva área científica ou usa essa área científica para dela se servir para a sua “carreira”? Os locais de trabalho reaparecem com a obrigatoriedade de uso de máscara. Agora? Felizmente em muitos locais de trabalho com risco geral acrescido (ou mesmo com risco geral) essa medida já foi tomada há muito!

A pandemia da COVID nesta segunda onda pandémica não é inovadora na resposta das populações a anteriores situações pandémicas com mais de um século, mas é inovadora na ligação universidade-comunidade e na investigação científica, nem sempre, infelizmente, da melhor forma. Por exemplo, demonstrado o insucesso relativo da resposta à segunda vaga as policies apressam-se a marcar a agenda para a 3ª vaga, com data desconhecida, mas, quase seguramente caso suceda, que não ocorrerá em janeiro de 2021 como é mediatizada (e isto é dito agora em novembro de 2020). De facto, pode haver 3ª vaga (e até mais), mas tudo leva a crer que, a ocorrer, seja posterior a meados ou final de fevereiro de 2021.

A realidade concreta, qualquer que seja o exercício mental sobre a interpretação dos dados de morbilidade e de mortalidade, é que a resposta do sistema de saúde, e designadamente do SNS, é insuficiente (se não mesmo inadequada) face à distribuição (desta e de outras) doenças na comunidade e que os dados de mortalidade, em fim de linha e qualquer que seja a interpretação, é preocupante. O que é urgente sobrepõe-se sempre ao que é importante e quem sofre são, como sempre (isso não muda), os doentes.

O que é mais perturbador, para alguém que se dedica a procura de respostas organizadas a problemas de saúde em grupos de pessoas (essencialmente empresas), é que o que é prevalente é sempre a resposta hospitalocêntrica das questões de saúde (mesmo de Saúde Pública) porque é essa a cultura dominante. Mesmo em quadros iminentes de ruptura dessa resposta, como actualmente acontece, em que a solução encontrada é adoptar o recurso a alguém com o 12º ano de escolaridade para suprir insuficiências que já eram óbvias há mais de oito semanas (mas, claro, não eram respostas hospitalares!… e, por isso, só adoptadas in extremis).

Não poderia existir melhor indicador que a perspectiva da “culpa” se sobrepõe, sistematicamente, à teoria do “risco” em matéria de Saúde Pública do que a actual situação. As respostas a problemas de saúde que não sejam centradas em hospitais nem são sequer consideradas ou, quando o são, são “maltratadas” porque, no essencial, são mal equacionadas ou, no mínimo, são mal compreendidas. Até na área do Cuidados Primários de Saúde, quanto mais na área da Saúde Pública!

É o que há! … mas não desesperemos, quem tiver esperança vislumbrará que daqui a algumas gerações a “coisa” vai mudar. Veja-se a actual “fé” nas vacinas durante tantos anos tão pouco valorizadas e, actualmente um verdadeiro “sebastianismo” da solução do problema: poder-se-ia dizer que “a ocasião faz o ladrão!”. Ocorrerá, por certo, o mesmo em relação à Saúde Pública e à Saúde Ocupacional mas, tal como com as vacinas, ainda temos que penar mais algumas gerações.

Lisboa, 22 de novembro de 2020

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

3 comentários em “COVID-19: quem sabe de logaritmos não sabe de doenças e vice-versa?

  1. Como sempre uma soberba e oportuna reflexão e uma testes de esperança para todos aqueles que se sentem diariamente afastados do fim pretendido

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