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Suberose: uma doença profissional identificada por portugueses

A suberose é uma alveolite alérgica extrínseca provocada pela exposição a poeiras de cortiça. Foi descrita clinicamente por Vinte-e-Um Mendes em 1947 e por Lopo Cancella de Abreu em 1955, ambos médicos portugueses, que associaram alguma sintomatologia respiratória à exposição a poeiras de cortiça, denominando-a suberose.

Estudos posteriores, entre outros, de Ramiro Ávila, de Thomé Vilar, de Telles de Araújo e de Cortez Pimentel foram decisivos para o esclarecimento de muitos aspetos epidemiológicos e patogénicos daquela doença. De facto, histologicamente observaram-se granulomas epitelióides que o vermelho de cochonilha corou, indicando tratar-se de partículas de cortiça. Imunopatogenicamente demonstrou-se a existência de anticorpos precipitantes (precipitinas) contra um fungo que se desenvolve na cortiça, o Penicillium Frequentans.

Clinicamente a suberose caracteriza-se por um quadro subagudo ou crónico de alveolite, que pode evoluir para a fibrose pulmonar, com compromisso brônquico muito frequente traduzido em sintomatologia de tosse, expectoração e outra sintomatologia asmatiforme e, por vezes, queixas de irritação nasal. Nos trabalhadores com sinais sugestivos de doença do interstício pulmonar os sintomas dominantes são a tosse, a dispneia progressiva, o emagrecimento e, nos surtos agudos, os acessos febris.

Um dos primeiros estudos epidemiológicos realizado em fábricas de cortiça foi publicado em 1973 (Ávila et al., 1973) e foi dirigido a 697 trabalhadores através da realização de um questionário de sintomas, de um exame clínico, de um exame espirométrico e microrradiográfico e da pesquisa de precipitinas para o Penicillium Frequentans. Com esses critérios identificou-se uma prevalência de quase um em cada cinco operários portadores de suberose.

Hoje um desses médicos e investigadores deixou-nos (Ramiro Ávila, 23.10.1940 – 14.02.2018) e é justo recordá-lo e dar eco à sua excelência de médico e de investigador.

A suberose é uma doença profissional que foi descrita e caracterizada por Ramiro Ávila e por outros médicos e investigadores portugueses que, dessa forma, deram um importante contributo da Medicina Portuguesa, essencialmente nas especialidades de Pneumologia e de Medicina do Trabalho. Saibamos merecer esse passado para “rasgar” um melhor futuro para a Medicina do Trabalho e para a Saúde Ocupacional.

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Bibliografia

  • Ávila R et al. Estudo epidemiológico da doença respiratória dos trabalhadores da indústria da cortiça. O Médico. 1973; 68:257.
  • Sousa-Uva A.  SuberoseIn: Mendes, René (Org.). Dicionário de Saúde e Segurança do Trabalhador: Conceitos – Definições – História – Cultura. Novo Hamburgo/RS: Proteção Publicações, 2018. 1.280 p. [Obra coletiva com 522 autores]. (no prelo) isbn:ISBN: 978-85-67121-01-7.
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António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.
António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico e Professor Catedrático de Saúde Ocupacional da Escola Nacional de Saúde Pública onde coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental e ainda coordena o curso de especialização em Medicina do Trabalho.

2 comentários em “Suberose: uma doença profissional identificada por portugueses

  1. Há um ou dois dias faleceu outro médico, anátomopatologista associado à descoberta da suberose, Cortez Pimentel.
    Faleceram todos os médicos citados no texto mas a sua memória permanece nos que com eles privaram e aprenderam. É o meu caso.

  2. Caro Doutor–não será uma correcção –quem sou eu–mas a minha experiência como Autoridade Sanitária em Santa Maria da Feira–onde trabalhavam 11000 Trabalhadores na Cortiça–1984-86 após o Curso de Med do W na ENSP —–pois o 1º paragrafo cita –poeiras de cortiça–e o restante texto o Penicilium–
    Suberose-Fungo ou como é conhecido”PÓ Branco” após cozedura e pousio/curtimenta—o Pó de cortiça origina Pneumoconiose –A suberose atingiria 3% dos expostos -mas muitos casos propositadamente, ou não!!!tinham diagnóstico de outras doenças pulmonares–…como Bronquites etc…acho que ainda tenho alguns 47511-12 –de 1997-8 como Coordenador Distrital de Saúde Ocupacional e Ambiental da ARS Aveiro.

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