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+COVID-19: casa roubada, trancas à porta!

É como somos … “casa roubada, trancas à porta”. Claro que, evocando sempre aspectos que o neguem … Dito de outra forma, claro que se pensou em tudo, se planeou tudo, se fez tudo o que se devia e que a estirpe inglesa é que é culpada (que era conhecida na altura da decisão das medidas a adoptar nas Festas que não foram felizes). Convém recordar que a actual pandemia lavra, praticamente, há um ano e que convém estar muito atento ao que se passa noutros locais do planeta!

Há muito que se sabe que as mutações são a regra nos vírus e que as variantes podem modificar a sua circulação nas populações e que, na actual pandemia, é uma realidade a sua circulação no nosso país (somos uma espécie de Algarve dos Ingleses), como outras variantes também circulam e circularão até o vírus se adaptar ao hospedeiro e se tornar endémico. Muitas delas também “portuguesas” …

Vem isto a propósito do actual confinamento, da propagação do SARS-CoV-2 em crianças e jovens (como se não circulassem nos adultos …), das políticas adoptadas e do encerramento das escolas por duas semanas hoje determinado. Claro que quem tem que decidir o tem que fazer com o conhecimento disponível e uma margem enorme de erro e que a criação de conhecimento não tem o mesmo calendário que as medidas a tomar e mesmo se tivesse não responderia cabalmente ao que temos que saber para actuar (é por causa disso que há o princípio da precaução). Os decisores merecem todo o nosso respeito!

Mas as escolhas, no entanto, são muitas, entre as quais:

Investimos mais na mitigação ou na prevenção da COVID-19?

O actual “galope” incremental pandémico analisa-se só através de modelos que se alicerçam em apreciações pregressas imediatas? Só probabilísticas?

O conhecimento dos vírus, das doenças e de outra epidemias (e pandemias) não deverá ser tanto ou mais valorizado?  O conhecimento concreto da nossa realidade concreta não conta?

Duas semanas de encerramento é o veredicto (de vere dictum, em Português, isto é, verdadeiramente dito). É uma espécie de “apagão” pedagógico e não uma opção por ensino à distância como ocorreu na Primavera. Oxalá observemos boa repercussão na curva pandémica que se esgote apenas na recalendarização do calendário escolar. Eu adianto, também em termos probabilísticos, que não será suficiente.

É muito provável que até ao Carnaval o perfil dos novos casos se mantenha muito agreste. Entretanto, no domingo os eleitores juntam-se em escassas mesas de voto com um óbvio pico de risco (espero que sem as repercussões como as que se passaram no Natal) o que constitui sem dúvida uma situação em que há um novo aumento marcado da probabilidade de contágio. Oxalá isso não aconteça!

Entretanto a imunidade natural e artificial já atingirá cerca de 7% da população (a que corresponderá, hipoteticamente e no mínimo, 15 a 20% reais) mas os grupos mais vulneráveis não estão ainda maioritariamente protegidos. E, não menos importante, ainda não sabemos qual a duração dessa imunidade…

É hora de concentrarmos a nossa resposta à ameaça pandémica em convergência de esforços, em vez de dar tanta (ou mais) importância à sobrevivência em alguns cargos políticos ou outros de nomeação (ou dependência) política!

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

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