Natal covid

+COVID-19: todos vamos ter pelo menos uma prenda no sapatinho!

Cá estamos com quase um ano de pandemia. Todos (ou quase todos) mascarados (dentro e fora) e com uma grande “fezada” na vacina (com vogal fechada …). Mantém-se (e bem) o estado de emergência, mas a emergência da celebração do Natal em família parece valer o custo de um provável aumento de casos (e hospitalizações, e internamentos em intensivos e de óbitos). Tenho para mim que a mesma fé pressupõe a esperança que tal não acontecerá ainda que me pareça que a fé poderá não ser das melhores estratégias de acção na gestão deste risco pandémico.

Vai, por certo, ser um Natal diferente até para os médicos e outros profissionais de saúde que “pelejam” (mais controlo de danos que prevenção) nas Unidades de Saúde Pública que, se espera, tenham idênticas “mordomias” para a celebração em (e da) família (este ano, só a família muito chegada, porque não me dá na bolha falar da bolha porque vislumbro a imagem de Portugal a fazer bolhinhas o que tão perto do mar poderá não ser a melhor opção).

Na “montanha russa” pandémica, agora estamos no segundo planalto descendente ainda que com um número de casos, no mínimo, duplo dos ocorridos no primeiro pico. Veremos se ocorrerá uma terceira onda e, em caso afirmativo, se não tem a dimensão de “onda canhão” da segunda vaga. Entretanto, ocorreram cerca de meia dezena de milhares de mortos e, aparentemente, pelo menos outro tanto de excesso de mortalidade. Nem compreendo os argumentos “oficiais” porque se a redução de mais de um milhão de consultas e de centena(s) de milhar(es) de cirurgias não impactam na morbimortalidade, para que servirão?

De facto, o Ministério da Saúde é essencialmente, e há muito, um Ministério da Doença dado o peso relativo da doença crónica que consome mais de dois terços dos seus recursos e, essencialmente, no seu diagnóstico e tratamento. Com a COVID-19 as doenças transmissíveis reapareceram com vigor e “desocupam”, parcialmente, as patologias crónicas de uma forma, por enquanto, não sazonal, mas logo logo, por certo, tudo voltará ao que era.

Em 2021 o que se deseja é que, no mínimo, a dimensão pandémica da COVID-19 se fine e a sociedade volte gradualmente ao período pré-pandémico de que todos temos tantas saudades e se recupere uma das maiores conquistas da Humanidade que é a mobilidade de pessoas e bens e se reactivem os afectos tão indispensáveis à nossa saúde. A “aldeia global” resultante do processo de globalização “motorizado” pela Economia voltará, por certo, a marcar o nosso dia-a-dia, para o bem e para o mal.

A globalização da doença que esta (e outras) pandemia(s) sempre determina(m) será, parece-me, cada vez mais frequente e a nossa memória colectiva, espera-se, por certo desenvolverá melhores modelos organizativos de resposta a essas potenciais situações futuras que, seguramente, regressarão em data(s) indeterminada(s). Espera-se que as empresas e outras organizações tenham valorizado agora como é importante ter trabalhadores saudáveis e que os locais de trabalho saudáveis são um meio e não um fim.

Entretanto, no início do ano novo, vai-se principiar a imunoterapia específica que dificultará muito a vida ao SARS-CoV-2, que terá cada vez mais dificuldade em arranjar “matéria-prima” e da qual resultará seguramente uma verdadeira dança dos prefixos (pan; epi; en) de demia. Oxalá os meus concidadãos mantenham o empenho que têm demonstrado nas atitudes e comportamentos que, de facto, marcam a diferença: o distanciamento físico (“Gold standard”) e o uso de máscara (mesmo durante, pelo menos, um semestre de vacinação).

É o que temos e não o que gostaríamos de ter e é isso que, de facto, interessa …

Lisboa, 10 de dezembro de 2020

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subscribe!