+COVID-19: a propósito da “gorda fura filas”

Estou numa idade em que o tempo já passado nos dá a (falsa) sensação de já termos visto muito e de se achar que pouco (ou nada) nos pode surpreender. Nada de mais errado já que me tenho enganado muito!

É de todos conhecido os pontos fortes e fracos do povo português (que não me parece que seja muito diferente de outros povos), mas, a propósito da vacinação contra a COVID-19, temos tido, num curto espaço de tempo, tudo o que há de melhor e de pior. Vem isto a propósito de um artigo de opinião, de 9 de fevereiro de 2021, da Enfermeira Maria Augusta Sousa por quem nutro admiração e afecto e com quem, profissionalmente, me cruzei algumas vezes.

Quando iniciou o seu mandato (historicamente, a segunda Bastonária) na Ordem dos Enfermeiros, há quase vinte anos, vinda de Sindicatos dos Enfermeiros, confesso que me recordo de ter reflectido sobre esse trajecto. A velha questão das actividades das Ordens e dos Sindicatos e as dificuldades de conciliação dos papéis representados. Enganei-me também! 

Também muito recentemente, ainda que na primavera, ouvi o General Ramalho Eanes falar “como velho” (nas suas palavras e, de facto, não muito longe dos noventa anos de idade) referindo, caso fosse necessário em internamento hospitalar, oferecer o seu ventilador. Mais recentemente algo muito semelhante e altruístico a propósito das prioridades de vacinação. Ter-me-ei enganado também por nunca ter votado nele em eleições em que foi candidato? Não sei!

Também na primavera passada soubemos da oferta de voluntariado de quatro dígitos de médicos, muitos dos quais com funções desempenhadas de grande responsabilidade e elevação que, pasme-se, não mereceu a devida atenção ou “caiu em saco roto” já que, em quase um ano, não se recorreu a essa dádiva conforme foi notícia nesta primeira metade de fevereiro. Enganei-me de novo porque na recente onda pandémica vi recorrer a estudantes, profissões diversas (alguns pagos) e até militares para actividades da área da saúde, ignorando-se olimpicamente aquele donativo ou, pelo menos, revelando-se aparentemente incapacidade ou, pelo menos, insuficiente capacidade de planear, organizar e concretizar essa oferta altruística e, tenho profunda convicção, sem qualquer outra intenção.

As situações de crise profunda, como é um bom exemplo a actual onda-canhão provocada pelo SARS-CoV-2, pelos vistos, não foge à regra de nos revelarem o melhor e o pior que temos. Outras situações, como cenários de guerra, já nos tinham ensinado essa. circunstância reveladora.

A “interpretação” que alguns fizeram das prioridades remete-me para muitas outras situações que por aí pululam e que o povo denomina, de forma algo rude “o salve-se quem puder”, mas que poderia enquadrar-se bem na palavra “corrupção” no seu sentido mais amplo ou abrangente de deterioração ou degradação. Há quem goste (poucos) de hastear essa bandeira de forma reiterada e a quem devemos o nosso respeito e admiração, caso contrário continua-se a mudar para ficar tudo na mesma.

Eu prefiro agora evocar bons e maus exemplos com a enorme expectativa que nos façam reflectir e nos autodeterminem nas nossas escolhas e opções. Ou o todo não será maior que a soma das partes?

Já agora, quem furará melhor? Uma gorda ou uma magra? Ou tanto faz?

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

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