+COVID-19: Não é só uma pessoa que fica doente, é a família, é a empresa é o país … é o mundo!

Há pouco mais de um mês (em 12 de janeiro), num anterior texto, referia “Se cem milhões de casos e dois milhões de óbitos, cerca de metade dos quais nos EUA e Europa, não são suficientes para nos mobilizar ainda mais na actual emergência de Saúde Pública, o que nos poderá mobilizar?

Em fevereiro de 2021, podemos corrigir para cerca de 110 milhões (mais 10%) e cerca de dois milhões e meio de óbitos (mais 25%), e logo em meados deste mês. Mais de 1% da população mundial já contraiu a doença, mas quantos terão estado (ou sido) infectados?

Será apenas aparente o aumento da letalidade? Observa-se um aumento de cerca de 10 a 15 % da letalidade. Terá algum significado?

Não serão suficientes estes indicadores (ainda que algo grosseiros) para perceber que as medidas de prevenção serão ainda necessárias pelo menos mais um semestre? É que neste inicio de ano já se tem vacinado copiosamente, ainda que não tanto quanto se queria.

Para quem achava que a vacina era uma espécie de gazua para a solução do problema, não será preferível manter o foco em “ser agente de Saúde Pública”, pelo menos até final do verão? Ou não chega a recente peri-ruptura da resposta das unidades de prestação de cuidados de saúde que, de uma vez por todas, não se esgotam em abordagens exclusivamente de natureza clínica. Veja-se o que se passou (e se passa, já que os “rastreadores” são um “remendo”) com os sistemas, pelo menos locais e regionais, de Saúde Pública mais ou menos deixados à sua sorte em recursos disponíveis há um ano.

E, pior ainda, será que o aumento da letalidade corresponde a um aumento da virulência?

As mutações do vírus, cada vez mais frequentes (e esperadas já que são a regra nos vírus), estão a ser encaradas globalmente? As necessárias respostas de Saúde Pública foram as mais cautelares? e a Nova Zelândia “mata mosquitos com caçadeira” por, aparentemente, confinar uma cidade com sete dígitos de habitantes por três casos na mesma família, mãe, pai e filha menor?

A disponibilidade dos povos em vacinas e a vacinação, globalmente, terão alguma (in)equidade? Os “donos do mundo”, individualmente ou em diversos grupos, estão a fazer o melhor que poderiam fazer?

Tantas questões sem (ou com, ainda, insatisfatória) resposta deveriam ser suficientes para se manter a sensatez de progredir com alguma precaução na gestão do risco da actual pandemia. No entanto a atracção pelo oito ou oitenta, suponho, que nos está “agarrada à pele”. E, note-se, que a gestão do risco é de a pandemia “lavrar” e não de “gerir o risco de quem gere o risco não o gerir bem”.

Tudo leva a crer que, pelo menos, o pico dos efeitos deletérios já terá ocorrido e, portanto, o pior já ter passado e o percurso de regresso a algo mais parecido com o que era antes estar, agora, mais perto. É essa expectativa que deve determinar, com precaução, o nosso trajecto ou há outras alternativas?

Lisboa, 17 de fevereiro de 2021

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

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