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+COVID-19 – uma gestão do risco com muita pinta: meia dúzia de is!

A gestão de risco de natureza epidemiológica nunca é completamente exacta, menos ainda perfeita, e exige o compromisso de todos nesse objectivo. Contrariamente ao diagnóstico das situações de risco ou à “avaliação do risco” na sua acepção mais ampla (o “risk assessment”) que se deve basear, essencialmente, em conhecimento científico, a gestão do risco (risk management) não é, nem de longe nem de perto, apenas (e só) determinada por esse conhecimento.

De facto, qualquer política de Saúde Pública tem, invariavelmente, diversas repercussões na comunidade com um amplo espectro de consequências, essencialmente sociais e económicas. O conhecimento científico é nesse contexto necessário, mas não suficiente.

Qualquer decisão sobre (des)confinamento, hoje tão actual entre nós, deve enquadrar-se numa perspectiva de gestão de risco no contexto de políticas de Saúde Pública e propõe-se que na actual pandemia tenha “muita pinta” nos critérios conducentes a qualquer decisão nessa matéria. Desde logo, destaca-se o conhecimento dos novos casos (incidência) e a realização de acções de busca activa de casos (inquéritos epidemiológicos) e da sua separação dos vulneráveis (isolamento).

A maior ou menor velocidade de “reprodução” da doença(índice de transmissibilidade), a gravidade das manifestações clínicas acoplada à capacidade instalada de lidar com isso (internamentos hospitalares em enfermaria e cuidados intensivos) e o nível de conhecimento e literacia de todos (informação) são igualmente determinantes, para não falar de um qualquer índice de testagem.

Só nos resta definir as “linhas vermelhas” que é bem duvidoso que se devam basear exclusivamente em variáveis quantitativas (em outros contextos apelidadas muitas vezes como “lixo organizado”). Uma abordagem categorial parece bem mais adequada e já existe muita informação disponível não só no nosso País como no mundo inteiro, restando-nos apenas optar e decidir. No meu caso votei para que alguém nos governasse e que organizasse o Estado para dispor dos “instrumentos” organizacionais que o permitam fazer da melhor forma com os meios disponíveis que, indiscutivelmente, devem incluir o contributo (e compromisso) leal de todos.

A gestão do actual risco pandémico enquadra-se, indiscutivelmente, nesse contexto, como são bons exemplos disso a definição do estado de emergência para adequação da resposta ou o plano de vacinação. Com muita pinta, recomenda-se, sintetizando, pelo menos critérios de:

– Incidência
– Inquirição e busca activa de infectados
– Isolamento
– Índice de transmissibilidade
– Internamentos
– Informação e um índice de testagem

E (lê-se i) muito bom senso que, infelizmente, não é sinónimo de senso comum no actual tsunami pandémico. E (lê-se i), ainda, já agora convém também aplicar o princípio KISS (Keep It Sweet & Simple ou Keep It Simple, Stupid).

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

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