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+COVID-19: agora a propósito das vacinas!

O que se tem passado com as vacinas contra a COVID-19 é talvez um pouco bizarro. Claro que se pensarmos em critérios controláveis, esses critérios devem ser simples e escrutináveis e o melhor moldados que for possível ao conhecimento da história natural da doença. Nessa perspectiva é difícil arranjar um critério melhor do que a idade porque tem essa relação muito bem estabelecida e demonstrada, quer na gravidade da doença, quer na letalidade. E desde que existem registos civis, também está disponível numa sólida e segura base de dados nacional, perfeitamente perscrutável por quem tenha acesso a essa informação para esses fins concretos.

Mas não, os critérios, para além da idade, “fatiam”, por exemplo e entre outros, o público e o privado, os idosos por lares e fora deles, grupos profissionais diversos, actividades desempenhadas, patologias diversas, aspectos políticos (e muitos outros mais) e instala-se, pelo menos assim parece, a grande confusão. A competição da apreciação da indispensabilidade e muitos outros aspectos aguçam, sem solução tangível, apreciações variáveis da representação social dominante e eis-nos instalados em discussões estéreis “emolduradas” no chico-espertismo já bem conhecido de alguma da nossa malha social, felizmente muito minoritário ainda que, infelizmente, apenas em número relativo.

Qual o resultado? Cisões e divergências, comparações incomparáveis e até, pasme-se, aproveitamentos políticos e critérios dos critérios. Não se deveria fomentar sinergias e convergências? Será esta a melhor forma de “sermos todos agentes de Saúde Pública”? Serão estas “interpretações” distorcidas factor de coesão de todos na luta contra a pandemia? De facto, a autoridade em Democracia pressupõe, desejavelmente, confiança e disciplina que não parecem, neste contexto, ser dominantes.

Dizem os chineses que tornar as coisas difíceis fáceis é difícil, mas é fácil tornar as coisas fáceis, difíceis. Foi necessário agências Europeias veicularem a história dos 80/80/80 para se conseguir a complexidade soberbamente simplificada? Isso sim é algo fácil de entender sem carrear a complexidade do que se sabe, para não falar do que ainda falta saber e sem escamotear o que tem maior importância. Claro que, por exemplo e em teoria, a probabilidade de infecção num ancião octogenário ou nonagenário numa residência para idosos é mais elevada, mas a história da doença provocada pelo SARS-CoV-2, uma vez infectado, não dá qualquer importância a essa variável em termos de qualquer eventual desfecho.

Para além desses aspectos, mesmo que dupliquemos a cadência da vacinação, pressupondo a sua disponibilidade plena, serão necessários, no mínimo, mais de um semestre de trabalho árduo. Dito de outra forma, e como já há uns meses foi por nós referido, até ao final do verão, no mínimo, temos que reforçar as nossas medidas de precaução, em vez de nos consumirmos em discussões insuficientemente produtivas para a energia que despendemos.

O apelo que deve ser (re)feito (até à exaustão) é o que foi, e bem, realizado no início da pandemia: sermos todos agentes de Saúde Pública. Estaremos, de facto, a ser todos agentes de Saúde Pública? Não me parece e vejo insuficientes benefícios na contenda das prioridades de vacinação, ainda que não renegue a importância da análise crítica de tudo o que nos diga respeito (não há ninguém mais interessado na sua saúde do que o próprio)!

E diga-se, em abono da verdade, que as acções em Saúde Pública devem mesmo ter a preocupação da mais ampla participação de todos e, por maioria de razão, numa pandemia que já matou mais de dois milhões de seres humanos no mundo.

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva

António de Sousa Uva é médico do trabalho e Professor Catedrático. Coordena o Departamento de Saúde Ocupacional e Ambiental da ENSP/UNL e é Membro do Centro de Investigação em Saúde Pública (CISP).

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